A Igreja no Mundo
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Ecumenismo não está em crise, chega a sua maturidade
Fala a teóloga alemã Jutta Burggraf
- O ecumenismo não está em crise, «mas em uma situação de maior maturidade:
- vemos hoje mais claramente o que nos une e o que nos separa». É o que comenta a Zenit a especialista em ecumenismo Jutta Burggraf, alemã, professora de Teologia Sistemática e de Ecumenismo na Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra. O recente documento «Respostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina da Igreja», publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé, segundo a teóloga, «colocou o dedo na ferida e, ao mesmo tempo, assinalou em que direção devem ir os futuros diálogos ecumênicos».
- O novo texto da Congregação para a Doutrina da Fé recorda que não traz nenhuma novidade, mas que afirma a doutrina da Igreja perante algumas interpretações incorretas. Que tipo de erros se cometem, neste sentido, no movimento ecumênico?
- Burggraf: Efetivamente, pode-se considerar o ecumenismo como um movimento único – suscitado pelo próprio Espírito Santo –, cujo fim consiste em promover a unidade entre os cristãos em todo o mundo. Neste movimento participa cada uma das comunidades cristãs desde sua perspectiva própria. E cada uma tem sua compreensão específica sobre o que é a desejada unidade.
Atualmente, está ganhando muita influência a chamada «branch-theory», que foi elaborada pela Associação para a Promoção da Unidade dos Cristãos no século XIX e ampliada no século XX. Segundo essa teoria, o cristianismo entende-se como uma árvore.
O que as diversas confissões têm em comum é o tronco, do qual saem vários ramos exatamente iguais:
- a Igreja Católica, as Igrejas Ortodoxas e as Igrejas que saíram (direta ou indiretamente) da Reforma protestante.
Nós, católicos, não podemos aceitar essa teoria. Não buscamos uma super-Igreja (com uma concepção «federalista» da unidade». Segundo nossa fé, a unidade da Igreja de Cristo não é uma realidade futura, hoje inexistente, que teríamos de criar todos juntos. Nem tampouco é algo repartido entre diversas comunidades, que sustentam doutrinas às vezes contraditórias.
É bem mais uma realidade que, em seu núcleo essencial, já existe e sempre existiu, e que subsiste na Igreja Católica:
- está realizada nela – apesar de todas as debilidades de seus filhos – pela fidelidade do Senhor ao longo da história.
- Assim se pode dizer realmente que a unidade da Igreja já existe?
- Burggraf: O termo ecumenismo vem das palavras gregas «oikéin» (habitar) e «oikós» (casa) que tiveram diversos significados ao longo da história. Os cristãos as empregaram para falar da Igreja, a grande casa de Cristo.
A porta para entrar na Igreja é o Batismo válido, que se administra segundo o rito estabelecido e a fé recebida de Cristo. Esta fé deve abarcar ao menos os dois maiores mistérios que nos foram revelados: a Santíssima Trindade e a Encarnação. Em conseqüência, todas as pessoas batizadas nessas condições incorporaram-se a Cristo e «entraram» formalmente em sua casa. Podem ficar doentes e inclusive morrer (espiritualmente), mas ninguém pode tirar-lhes mais. Por isso – recorda o Concílio Vaticano II – não só os católicos são «cristãos», mas todos os batizados, em quanto que suas respectivas comunidades conservam ao menos esta fé mínima nos dois grandes mistérios mencionados.
«São nossos irmãos – disse Santo Agostinho – e não deixarão de sê-lo até que deixem de dizer:
“Pai nosso”». Em uma criança recém-nascida, a graça de Deus atua do mesmo modo, tanto se é batizada na Igreja Católica como se o é em uma Igreja Ortodoxa ou Evangélica.
- Em que consiste, então, o trabalho ecumênico desde a perspectiva católica?
- Burggraf: A Igreja convida a olhar a nossos irmãos na fé não só sob a perspectiva negativa do que «não são» (os não católicos), mas sob o prisma positivo do que «são» (os batizados). São os «outros cristãos», aos que estamos profundamente unidos: estamos na mesma casa!
A tarefa ecumênica não consiste, portanto, em criar a unidade, mas em fazê-la visível a todos os homens, superando as separações que impedem a Igreja de mostrar-se ao mundo tão esplêndida como realmente é.
Por esta razão, é necessário buscar uma forma eclesial que abarque, de um modo mais completo possível, as legítimas diversidades na teologia, na espiritualidade e no culto. Na medida em que conseguimos realizar uma pluralidade boa e sadia, «a Igreja resplandece – segundo o Papa João XXIII – mais bela ainda pela variedade dos ritos e, semelhante à filha do Rei soberano, aparece adornada com um vestido multicolor».
Segundo esta proposta positiva, um cristão não condena nem rechaça os «outros», mas busca tirar à luz a raiz comum de todas as crenças cristãs, e se alegra quando descobre nas outras Igrejas verdades e valores que talvez não tenha tido suficientemente em conta em sua vida pessoal. É compreensível que o Concílio Vaticano II, partindo desta perspectiva, tenha aberto o caminho a uma grande vitalidade e fecundidade. O abriu comprometidamente, em primeiro lugar, à própria Igreja Católica que tomou, de novo, consciência de purificar-se e renovar-se constantemente. A unidade, quando se der algum dia, será obra de Deus, «um dom que vem do alto». É preciso não esquecer nunca que o verdadeiro protagonista do movimento ecumênico é o Espírito Santo.
- Qual é o maior obstáculo ecumênico que se está enfrentando neste momento?
- Burggraf: É precisamente a eclesiologia. Portanto, o documento colocou o dedo na ferida e, ao mesmo tempo, assinalou em que direção deveriam ir os futuros diálogos ecumênicos. Segundo o Vaticano II, distinguem-se diversos modos de pertencer à casa de Cristo.
A pertença é plena se uma pessoa entrou formalmente – mediante o batismo – na Igreja e se une a ela através de um «triplo vínculo»:
- aceita toda a fé, todos os sacramentos e a autoridade suprema do Santo Padre. É o caso dos católicos. A pertença, em contrapartida, é não-plena se uma pessoa batizada rechaça um ou vários dos três vínculos (totalmente ou em parte). É o caso dos cristãos ortodoxos e evangélicos. No entanto, para a salvação não basta a mera pertença ao Corpo de Cristo, seja plena ou não. Todavia, mais necessária é a união como a Alma do Senhor que é – segundo a imagem que utilizamos – o Espírito Santo. Em outras palavras, somente uma pessoa em graça chegará à felicidade eterna com Deus. Pode ser um católico, um anglicano, luterano ou ortodoxo (e também um seguidor de outra religião).
As estruturas visíveis da Igreja são, certamente, necessárias. Mas em seu núcleo mais profundo, a Igreja é a união com Deus em Cristo. Quem é mais «Igreja»? Aquele que está mais unido a Cristo. Aquele que ama mais.
É significativo que Jesus Cristo nos coloque como modelo de caridade um «bom samaritano», quer dizer, uma pessoa considerada, naqueles tempos, como «herege».
Alberto Magno afirma:
- «Quem ajuda seu próximo em seus sofrimentos – sejam espirituais ou materiais – merece mais louvor que uma pessoa que constrói uma catedral em cada marco no caminho desde Colônia a Roma, para que se cante e reze nelas até o fim dos tempos.
Porque o Filho de Deus afirma: Não sofri a morte por uma catedral, nem pelos cantos e rezas, mas pelo homem».
- Pensa que hoje o ecumenismo goza de boa saúde?
- Burggraf: O diálogo ecumênico, em vários níveis, encontra-se em pleno desenvolvimento. Católicos, ortodoxos e protestantes aproximaram-se uns dos outros, conheceram-se mutuamente, deixaram para trás velhos preconceitos e clichês e se deram conta de que sua divisão é um escândalo para o mundo e contrária aos planos divinos. Podemos dizer, sem exagerar, que avançamos no caminho para a plena unidade nas últimas décadas mais que em vários séculos. No entanto, o «entusiasmo ecumênico» dos tempos posteriores ao Concílio diminuiu. Perdeu-se a ilusão – bastante estendida no mundo inteiro – de que as diferenças entre as diversas comunidades cristãs desapareceriam com relativa facilidade. Viu-se que o caminho é difícil e longo.
Mas não estamos em uma crise, mas em uma situação de maior maturidade:
- vemos hoje mais claramente o que nos une e o que nos separa.
Um ecumenismo sólido está baseado na convicção de que, apesar das dificuldades, devemos tentar colaborar, dialogar e, sobretudo, rezar juntos com a esperança de descobrir a unidade que de fato já existe.A Igreja no Mundo
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Ecumenismo precisa de «purificação das estruturas»
Entrevista ao presidente da Conferência Episcopal da Grécia
SIBIU, segunda-feira, 17 de setembro de 2007 (ZENIT.org). - O ecumenismo precisa de uma «purificação das estruturas» das Igrejas e um maior conhecimento recíproco entre os cristãos, afirma Dom Fragkiskos Papamanolis, ofm-cap, bispo de Syros, Milos e Santorini. O prelado – que comenta com ironia que é católico e não greco-católico – é também administrador apostólico de Creta e presidente da Conferência Episcopal da Grécia. Falando com Zenit sobre as iniciativas normais de colaboração com os ortodoxos em sua terra, Dom Papamanolis traça um breve balanço das experiências da recente III Assembléia Ecumênica de Sibiu (Romênia) e lança um chamado para que todos os cristãos celebrem a Páscoa no mesmo dia.
– Qual é a situação da comunidade católica na Grécia?
– Dom Papamanolis: Na Grécia, a presença católica é mínima quanto aos católicos de nacionalidade grega. Somos 0,5% da população, aproximadamente 50.000. Enquanto isso, nos últimos quinze anos, com a queda do comunismo, a abertura dos países da União Européia, e a situação instável no Oriente Médio, os católicos tiveram um aumento de 700%. De 50.000, passamos a ser 350.000. Como pude informar ao Papa, durante a visita «ad limina apostolorum», em outubro de 2006, por uma parte este fato nos conforta, mas por outra nos cria também muitos problemas, porque há concentrações de católicos em lugares nos quais não há presença da Igreja Católica, onde não temos nem sequer um lugar de culto e menos ainda sacerdotes. Por exemplo, na parte sul-oriental da ilha de Creta, na cidade de Ierapetra, há cerca de mil católicos e sua paróquia se encontra em Heraklion, a quase 130 quilômetros de distância. Em Ierapetra há jovens casais e crianças em idade escolar a quem ninguém ensina o catecismo. Ultimamente, alugamos um local comercial e o usamos como lugar de culto e encontros. O que gostaríamos é que as Igrejas das quais estes católicos provêm nos ajudassem. Mas em sua maioria são Igrejas pobres em pessoal e finanças, como por exemplo a Albânia.
– Pode nos dizer em que âmbitos sociais há melhores relações entre católicos e ortodoxos?
– Dom Papamanolis:
- Sobretudo, não existe um diálogo oficial entre a Igreja Católica e a Ortodoxa na Grécia. Mas naquelas cidades, ou naquelas ilhas, nas quais há, ainda que seja discreta, uma presença da Igreja Católica, e, ainda mais, onde tem sede um bispo católico, há boas relações entre os bispos (ortodoxo e católico) e entre o clero, e isso é um fato positivo que anima os fiéis a caminhar rumo à unidade. No que diz respeito a mim, posso dizer que, na ilha de Syros, da qual sou bispo há 33 anos, tenho ótimas relações com o homólogo, o metropolita ortodoxo Doroteo II, que está lá há apenas cinco anos. Impulsionamos iniciativas que edificam muito nossos fiéis.
Por exemplo, por ocasião das festas litúrgicas, como Páscoa e Natal, vamos juntos visitar os enfermos ao hospital e os anciãos das três residências da ilha. Este «juntos» mudou completamente o sentido de nossa visita, porque não é só filantropia, mas está carregada de um significado de unidade e de reconciliação entre nós. Outra iniciativa, posta em andamento há três anos, e que levamos adiante ao menos uma vez ao ano, é um almoço conjunto de sacerdotes católicos e ortodoxos. Uma vez eu disse ao metropolita Doroteo II que, se não podemos compartilhar o banquete eucarístico, podemos ao menos sentar-nos em torno de uma mesa para comer juntos, e discutir sem fórmulas pré-fabricadas. E isso é o que fazemos.
– Que diálogos, estabelecidos aqui em Sibiu, o senhor continuará ao voltar à Grécia?
– Dom Papamanolis:
- Pela primeira vez, algo que não sucedeu nas duas primeiras assembléias, por iniciativa da Igreja Ortodoxa, e junto às delegações das Igrejas Ortodoxas, Católica e Evangélica, mantivemos uma reunião em Atenas. Um fato saudado como um grande evento. Agora, chegamos a Sibiu, já não somos estrangeiros entre nós, falamos pela rua e intercambiamos brincadeiras de amigos. Em Sibiu, o presidente da Comissão para as Relações Intraortodoxas e Intercristãs da Igreja Ortodoxa da Grécia, o metropolita Ignácio de Volos, nos convidou para almoçar e decidimos seguir este diálogo logo. Sem dúvida, é um pequeno passo. Mas não se trata da simples iniciativa de um bispo, se pensamos que conta com a aprovação do Sacro Sínodo. Começamos assim, pouco a pouco, quase escondidos, diria. No fundo, quando se semeia, a semente se esconde, e depois germina e dá frutos abundantes.
– Para terminar, o senhor gostaria de dizer algo que o preocupe especialmente?
– Dom Papamanolis:
- Eu diria que nossa pequena delegação da Igreja Católica na Grécia apresentou, aqui em Sibiu, uma moção à presidência da III Assembléia Ecumênica, pedindo que se convide o Governo turco a respeitar o título de «ecumênico» associado ao Patriarca de Constantinopla. Dei este escrito nosso a vários bispos ortodoxos, como por exemplo ao chefe da delegação do patriarcado ecumênico, o metropolita Miguel da Áustria, que agradeceu muito esta iniciativa. Um segundo chamado que quero fazer chegar a todos é que deixem de lado todas as diferenças e que busquemos uma data para celebrar a Páscoa no mesmo dia. Apresentei por escrito esta moção, pedindo que se faça pressão, com insistência, para encontrar uma data comum, seja qual for, para que todos os cristãos festejem juntos esta celebração litúrgica. É decisivo. Porque se nós não o fizermos, virá Ciro para fazê-lo em nosso lugar. Sabem quem é Ciro? Era o rei da Pérsia que, com o edito de 358 a.C. permitiu aos judeus voltar e reconstruir o Templo de Jerusalém porque sozinhos não conseguiam chegar a um acordo.
Se nós, cristãos, não conseguimos acordar uma data comum para celebrar a Páscoa no mesmo dia, virão os diversos governos ateus dizer-nos:
- «Ou vocês chegam a um acordo, ou já não levaremos em conta sua Páscoa».
E, portanto, na Semana Santa se seguirá trabalhando normalmente, e o Domingo de Páscoa será um domingo como os demais. Como já aconteceu na França. Isso nos cria muitos problemas, para nós como Igreja e também para a sociedade. Pensem simplesmente no problema dos bancos, que durante a Semana Santa se fecham na Grécia e não em outras partes, ou nas famílias mistas, com um pai católico e outro ortodoxo. A próxima Páscoa a celebraremos nada menos que com 5 semanas de diferença. Aqueles que seguem a Igreja Católica e se remetem ao calendário gregoriano, celebrarão a Páscoa em 23 de março de 2008, enquanto que a Igreja Ortodoxa, que segue o calendário juliano, a festejará em 27 de abril. Nós, desde 1968, distanciando-nos não sem dor de Roma, graças a uma permissão especial do próprio Paulo VI, celebramos a Páscoa com os ortodoxos no mesmo dia, mas inclusive esta solução não está isenta de problemas.
Espero que todos possam dizer na Páscoa: «Cristo ressuscitou!». Sem uma Ressurreição por etapas.
Extraído do site da Pime - Net
quarta-feira, 26 de maio de 2010
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