domingo, 29 de agosto de 2010
domingo, 11 de julho de 2010
Usando o diálogo para as bem-aventuranças !

Tudo podemos Naquele que nos fortalece, mas fazer-se-á necessário a nossa comprenssão e benevolência no que tange opiniões e caminhos a seguir que levá-nos ao Pai.
Além de nossas atitudes e ações, também necessário o é, o diálogo, á atenção carinhosa de saber ouvir. A força física ou armada, apenas impede o nosso crescimento nos levando a morte. Morte brutal e ferrenha e sem dignidade.
A unidade de crênça e religião, favorece um aprendizado e questionamentos que nos engrandece e suaviza o nosso caminhar em direção á Luz
Minha alma rejubila neste negro corpo.
Como o universo, a minha alma se mantém desconhecida
de alguns nas entranhas deste negro corpo. Nada ocorre por acaso,
se temos que cumprir uma missão, que a façanhas com a diginidade humana e espiritual.
Nós, pequenos seres, vivemos os desconfortos angústias. Provações estas, que
nos corrói, fere e nos torna subalternos de um sofrimento, que para muitos, se torna um deserto invencível.
Anjos e espíritos se unem para orientar-nos ao bom caminho, porém temos, o livre árbitrio da escolha. A mensagem já foi dita e escrita para todos:" Se conhecereis a Verdade, a Verdade vos libertará".Nesta atual realidade, pecamos não por saber, mas levados a falso conceitos.
Não há como fugir desta verdade, Ela é como o passaporte garantido para chegar-mos a Deus. Quisera eu, na minha insignificância, caminhar paralelamente ao caminho da Luz. Tribulação, angústias, desespero, lágrimas...
Tudo passa e nos fortalece, caso mantivermos a fé e a constância no Deus Supremo
de alguns nas entranhas deste negro corpo. Nada ocorre por acaso,
se temos que cumprir uma missão, que a façanhas com a diginidade humana e espiritual.
Nós, pequenos seres, vivemos os desconfortos angústias. Provações estas, que
nos corrói, fere e nos torna subalternos de um sofrimento, que para muitos, se torna um deserto invencível.
Anjos e espíritos se unem para orientar-nos ao bom caminho, porém temos, o livre árbitrio da escolha. A mensagem já foi dita e escrita para todos:" Se conhecereis a Verdade, a Verdade vos libertará".Nesta atual realidade, pecamos não por saber, mas levados a falso conceitos.
Não há como fugir desta verdade, Ela é como o passaporte garantido para chegar-mos a Deus. Quisera eu, na minha insignificância, caminhar paralelamente ao caminho da Luz. Tribulação, angústias, desespero, lágrimas...
Tudo passa e nos fortalece, caso mantivermos a fé e a constância no Deus Supremo
sábado, 10 de julho de 2010
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Evangelização Ecumenismo
Setembro de 2007 - Edição n.º 12
Em Debate é parte integrante da Revista MUNDO e MISSÃO - n.º 115
Torre de Babel - Pieter Brueghel
ecumenismo é uma promiscuidade em pecado, já que pretende agremiar numa só confissão seitas cujo próprio surgimento e a “raison d’être” (razão de ser) são desvios do caminho reto da tradição cristã original. É uma tentativa insólita de se chegar à Verdade através da aceitação simultânea de várias deturpações desta. São as próprias palavras de Jesus Cristo que nos mostram inequivocamente quão infundadas e destituídas de qualquer valor são as afirmativas sobre os benefícios espirituais para a humanidade que o ecumenismo possa trazer. São elas: “... E eu digo-te que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18). É óbvio, que esta Igreja já existe e que existe há dois milênios e que é uma só, independentemente do número e da distribuição geográfica dos fiéis por Ela congregados. É de se acreditar que o dito foi suficiente para tornar evidente a vacuidade espiritual do ecumenismo.
(V.Kurgánov, da Igreja Ortodoxa Russa)
s evangélicos são contrários ao ecumenismo porque “continuam crendo que a Reforma foi um avanço espiritual e não um equívoco. Acreditam que os esforços tendentes à unificação não levam em conta as razões reais da separação, a saber, as questões doutrinárias fundamentais. Entendem que o papado no catolicismo romano não é um ofício legítimo da Igreja. Que a maior parte do corpo doutrinário e ensino do catolicismo romano nada tem a ver com os princípios bíblicos e nem serve de progresso histórico válido na espiritualidade” (Eloy Melonio, Ecumenismo: Quais os fundamentos da proposta?, Revista Em Defesa da Fé, n.º 24).
termo ecumênico originou-se do grego oikoumene, derivado da palavra oikos: casa, lugar onde se vive, onde as pessoas têm um mínimo de bem-estar.
A expressão é utilizada em sentido religioso e representa o esforço de unidade entre as religiões cristãs, a pedido de Jesus a seu Pai:
- “Para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti; para que sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). Entretanto, surgidas ao longo da história, as divergências afastaram os cristãos de um convívio comum. As mais graves aconteceram nos séculos 11 (cisma ortodoxo) e 16 (cisma protestante).
s pentecostais e os neo-pentecostais, em geral, e os batistas, têm dificuldade com o ecumenismo. Em primeiro lugar porque, segundo eles, seria uma nova estratégia da Igreja católica para reconverter os “crentes” ao catolicismo. Do outro lado, o ecumenismo impediria o proselitismo (conquista de adeptos), que é a maneira pela qual muitos grupos evangelizam, uma vez que, para eles, quem não lhes pertence não se salva.
á grupos contrários ao ecumenismo também entre os católicos (a ponta extrema é a Fraternidade São Pio X, fundada pelo bispo Lefèbvre). Tradicionalistas e conservadores receiam que o diálogo ecumênico possa enfraquecer a genuína fé católica e gerar confusão entre os fiéis.
m geral, nota-se pouco interesse pelo ecumenismo dentro da Igreja católica (em nível de sacerdotes e leigos). As iniciativas ecumênicas são muito raras, a impulsividade dos pentecostais assusta e põe os católicos em defensiva. Há – de lado a lado – muita ignorância e preconceito sobre as outras confissões cristãs.
Irmãos e irmãs do Caribe, da América Central e do Sul em preparação para a 9.ª Assembléia Geral d0 CMI
“Todos os cristãos se professam discípulos do Senhor, mas têm pareceres diversos e caminham por rumos diferentes, como se o próprio Cristo estivesse dividido. Esta divisão, porém, contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do evangelho a toda criatura”
(Concílio Vaticano II – Unitatis redintegratio, 1)
uando é que nós, cristãos, teremos a lucidez e a coragem de reconhecer que nossa falta de unidade é uma causa fundamental de ateísmo?”
(Giuseppe M. Zanghí, filósofo e teólogo)
iante dos enormes problemas que o mundo enfrenta, diante da responsabilidade que temos de levar à frente o projeto de Deus para que a humanidade se realize plenamente e seja feliz, os cristãos retardam o avanço da história. Diante das tragédias da humanidade, opostas ao plano de Deus, podem os cristãos continuar se dando ao luxo atroz de trabalharem desunidos?”
(Enrique Cambón, teólogo)
s cristãos, pelo menos eles, renunciem a suas divisões, a suas posições, que se reconciliem, já que têm como ponto de referência um Deus que é Amor!”
(Roger Schutz, fundador da Comunidade de Taizé)
“Estou convencida que Deus não abandonou nenhuma das Igrejas durante estes séculos de divisão. Portanto, amanhã, com a reunificação, cada Igreja unida às outras, refletindo justamente a unidade de Deus, não só manterá a característica particular que foi desenvolvendo ao longo dos séculos, mas colocando-se em comunhão com todas as outras Igrejas, completar-se-á, fortalecer-se-á. Por isso, cada Igreja tornar-se-á, de certo modo, uma ‘especialista’ daquele determinado aspecto de verdade que ela mesma, ao longo dos séculos, foi aprofundando.”
(Chiara Lubich, fundadora do Movimento Focolare)
uvistes dez mil histórias sobre nós, que somos chamados protestantes. Se credes em apenas um milésimo destas histórias, deveis pensar muito mal de nós. (...) Daí se destrói completamente o amor fraternal; e cada grupo, encarando o outro como monstro, dá lugar à ira, ao ódio, à maledicência, a todo sentimento não-amistoso que, frequentemente, tem resultado em barbaridades desumanas, quase desconhecidas entre os pagãos.”
(John Wesley, fundador da Igreja Metodista)
nova atitude mental que o ecumenismo exige (...) leva cada Igreja a colocar Jesus Cristo no centro de seu sistema referencial, e não ela mesma, convencendo-se de que, se existe um retorno a ser feito, este cabe a cada uma delas de modo idêntico.
Este retorno é uma subida árdua do rio da história de cada Igreja, carregado de conquistas espirituais, mas também poluído pelas infidelidades de seus filhos, para chegar à nascente, onde encontramos a água pura da Palavra de Deus vivida com radicalidade e generosidade, e que nos revela o contorno preciso da Igreja de Jesus.”
(Sandra Ferreira Ribeiro, teóloga)
ecumenismo é um processo lento, às vezes desanimador, quando caímos na tentação de sentir e não escutar, de falar sem convicção, porque não é sempre fácil abandonar o conforto. Mas se o ecumenismo é uma estrada lenta e íngreme, como toda via de penitência, é também um caminho que, apesar de suas dificuldades, apresenta amplos espaços de alegria, paradas refrescantes, e permite também respirar a plenos pulmões o ar da comunhão.”
(Papa Bento XVI, durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, janeiro de 2007)
Igreja e igrejas
Encontro de Água - Declaração Ecumênica sobre a água como Direito Humano e bem público
mbora separadas, as Igrejas orientais têm verdadeiros sacramentos e, sobretudo, em virtude da sucessão apostólica, o Sacerdócio e a Eucaristia. Assim, são consideradas pela Igreja de Roma como “Igrejas particulares ou locais”. As comunidades cristãs, nascidas da Reforma do século 16, não têm a sucessão apostólica no sacramento da Ordem.
Segundo a doutrina católica, elas não conservam a genuína e íntegra substância do Mistério eucarístico e, portanto, não podem ser chamadas “Igrejas” em sentido próprio. Além delas, chamadas igrejas históricas, nasceram posteriormente as comunidades pentecostais e neo-pentecostais.
Concílio Vaticano II exortou “todos os fiéis a que, reconhecendo os sinais dos tempos, solicitamente participem do trabalho ecumênico” (Documento sobre o ecumenismo). Em nível central, isso se realiza através do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, criado em 1960. Existem diálogos bilaterais e multilaterais, tanto internacionais quanto em âmbito nacional.
Eis alguns diálogos intereclesiais dos quais a Igreja católica participa:
– Com as Igrejas Ortodoxas, a partir do “diálogo da caridade” iniciado na década de 1970 entre o patriarca Atenágoras e o papa Paulo VI.
– Com a Igreja Copta (uma antiga Igreja oriental). A partir de 1974, depois da declaração entre Paulo VI e o papa copta Shenouda III sobre divergências apenas de linguagem e não de doutrina.
– A Igreja católica vem mantendo diálogos constantes com as chamadas Comunidades da Reforma.
Conheça alguns documentos comuns: Com luteranos:
Declaração conjunta sobre a Doutrina de Justificação (1999).
Com a Aliança Reformada Mundial: - Para uma compreensão comum da Igreja (1990).
Com Anglicanos: Igreja como comunhão (1991).
grande teólogo reformado Oscar Cullmann afirmou:
“Devemos chegar à unidade não apesar, mas através da diversidade”.
Ele elencou os carismas essenciais de cada uma das três grandes tradições cristãs:
1.º Carismas “típicos” do protestantismo:
– a concentração sobre a Bíblia;
– a liberdade cristã, que favorece a abertura para o mundo.
2.º Carismas essenciais do catolicismo:
– a universalidade;
– a instituição (sendo um carisma, a organização protege o espírito: 1 Cor 14,33-40);
– o papado, com a condição de ser concebido como serviço petrino.
3.º Carismas próprios da Igreja ortodoxa:
– aprofundamento teológico do Espírito Santo;
– preservação das formas tradicionais da liturgia.
Iniciativas atuais (2006):
Celebração Ecumênica durante encontro da Conferência sobre História Latino-Americana
– Janeiro. Uma comissão internacional católico-reformada publicou o documento “A Igreja como Comunidade de Testemunho comum ao Reino de Deus”, em comemoração ao processo de diálogo, iniciado em 1970.
– Julho. A “Reunião de cúpula dos Chefes de Estado Religiosos”, promovida pelo Patriarca de Moscou, Alexis II, solicitou a adesão da Santa Sé.
– Novembro. O arcebispo de Canterbury e primaz da Comunhão Anglicana reza com o papa no Vaticano. Visita apostólica do papa à Turquia e encontro com Sua Santidade Bartolomeu I.
– Dezembro. O arcebispo de Atenas, Sua Beatitude Christodoulos, visita o papa no Vaticano.
1.º Renovação da Igreja, para que seja, cada vez mais, fiel ao evangelho.
2.º Conversão do coração (humildade, fraternidade, reconhecimento mútuo das faltas contra a unidade).
3.º União na oração, para impetrar a graça da unidade.
4.º Conhecimento mútuo: estudo das outras igrejas, segundo a verdade e na caridade.
5.º Formação ecumênica: o estudo da teologia e da história deve ser ministrado do ponto de vista e com sensibilidade ecumênica.
6.º Cooperação no campo social para enfrentar juntos, como cristãos, os problemas da nossa época.
CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2010 SERÁ ECUMÊNICA
Oração durante encontro ecumênico
presidente do CONIC, pastor Carlos Möller, recebeu do presidente da CNBB, dom Geraldo Lyrio Rocha, no dia 20 de agosto, a comunicação de que a Assembléia dos Bispos aprovou, em maio, o pedido de mais uma Campanha da Fraternidade Ecumênica em 2010 (a primeira foi em 2000 e a segunda em 2005). O pastor Carlos lembrou que o CONIC comemora, neste ano, 25 anos de fundação e para celebrar a data será realizado, de 15 a 17 de setembro, o Seminário “Ecumenismo e Missão – Para que todos sejam um”.
ECUMENISMO NÃO É DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO
nquanto o ecumenismo propõe a unidade entre os cristãos (católicos, protestantes, ortodoxos), o diálogo inter-religioso é um canal aberto entre cristãos e não-cristãos (judaísmo, islamismo, budismo, hinduísmo,...).
ESTRUTURAS ECUMÊNICAS
Celebração da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2005:
Dom João Braz; Pastor Luterano Renato Kühne e o
Bispo Anglicano Maurício de Andrade
• Conselho Mundial das Igrejas (CMI)
A principal organização ecumênica cristã mundial foi fundada em 1948, em Amsterdam, Holanda. Tem sede em Genebra, Suíça. Congrega mais de 340 denominações cristãs, que representam 500 milhões de fiéis, em 120 países, pelo menos.
Seu secretário geral atual é Samuel Kobia, metodista. A Igreja católica romana não participa da organização, mas mantém com ela grupos de trabalho em alguns departamentos, como a Comissão de Fé e Ordem e a Comissão de Missão e Evangelismo.
• Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC)
No Brasil, as Igrejas: - católica apostólica romana, católica ortodoxa siriana do Brasil, cristã reformada e as Igrejas protestantes históricas: - luterana, metodista, presbiteriana unida e episcopal anglicana do Brasil, pertencem ao CONIC, com sede em Brasília – DF. A entidade foi fundada em 1982. Procura aproximar as igrejas cristãs, promovendo debates e encaminhamentos práticos que levem à sua integração e à comunhão.
CURSOS SOBRE ECUMENISMO
CESEP – Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular
• Site: www.cesep.org.br • E-mail: cesep@cesep.org.br • Tel.: (11) 3105-1680
NOSSO CONVITE!
MUNDO e MISSÃO propõe aos seus leitores que se reúnam EM DEBATE nas escolas, paróquias, grupos de jovens, seminários, conventos, centros de formação... Depois, encaminhem, por favor, para nós, questionamentos, reflexões, opiniões, dúvidas, para que possamos compartilhar com os outros leitores.
Participem!
Enviem as conclusões (pessoais ou de grupo) para:
Editora MUNDO e MISSÃO
Rua Joaquim Távora n.º 686 – Vila Mariana
São Paulo – SP – 04015-011
E-mail: mundomissao@terra.com.br
Setembro de 2007 - Edição n.º 12
Em Debate é parte integrante da Revista MUNDO e MISSÃO - n.º 115
Torre de Babel - Pieter Brueghel
ecumenismo é uma promiscuidade em pecado, já que pretende agremiar numa só confissão seitas cujo próprio surgimento e a “raison d’être” (razão de ser) são desvios do caminho reto da tradição cristã original. É uma tentativa insólita de se chegar à Verdade através da aceitação simultânea de várias deturpações desta. São as próprias palavras de Jesus Cristo que nos mostram inequivocamente quão infundadas e destituídas de qualquer valor são as afirmativas sobre os benefícios espirituais para a humanidade que o ecumenismo possa trazer. São elas: “... E eu digo-te que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18). É óbvio, que esta Igreja já existe e que existe há dois milênios e que é uma só, independentemente do número e da distribuição geográfica dos fiéis por Ela congregados. É de se acreditar que o dito foi suficiente para tornar evidente a vacuidade espiritual do ecumenismo.
(V.Kurgánov, da Igreja Ortodoxa Russa)
s evangélicos são contrários ao ecumenismo porque “continuam crendo que a Reforma foi um avanço espiritual e não um equívoco. Acreditam que os esforços tendentes à unificação não levam em conta as razões reais da separação, a saber, as questões doutrinárias fundamentais. Entendem que o papado no catolicismo romano não é um ofício legítimo da Igreja. Que a maior parte do corpo doutrinário e ensino do catolicismo romano nada tem a ver com os princípios bíblicos e nem serve de progresso histórico válido na espiritualidade” (Eloy Melonio, Ecumenismo: Quais os fundamentos da proposta?, Revista Em Defesa da Fé, n.º 24).
termo ecumênico originou-se do grego oikoumene, derivado da palavra oikos: casa, lugar onde se vive, onde as pessoas têm um mínimo de bem-estar.
A expressão é utilizada em sentido religioso e representa o esforço de unidade entre as religiões cristãs, a pedido de Jesus a seu Pai:
- “Para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti; para que sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). Entretanto, surgidas ao longo da história, as divergências afastaram os cristãos de um convívio comum. As mais graves aconteceram nos séculos 11 (cisma ortodoxo) e 16 (cisma protestante).
s pentecostais e os neo-pentecostais, em geral, e os batistas, têm dificuldade com o ecumenismo. Em primeiro lugar porque, segundo eles, seria uma nova estratégia da Igreja católica para reconverter os “crentes” ao catolicismo. Do outro lado, o ecumenismo impediria o proselitismo (conquista de adeptos), que é a maneira pela qual muitos grupos evangelizam, uma vez que, para eles, quem não lhes pertence não se salva.
á grupos contrários ao ecumenismo também entre os católicos (a ponta extrema é a Fraternidade São Pio X, fundada pelo bispo Lefèbvre). Tradicionalistas e conservadores receiam que o diálogo ecumênico possa enfraquecer a genuína fé católica e gerar confusão entre os fiéis.
m geral, nota-se pouco interesse pelo ecumenismo dentro da Igreja católica (em nível de sacerdotes e leigos). As iniciativas ecumênicas são muito raras, a impulsividade dos pentecostais assusta e põe os católicos em defensiva. Há – de lado a lado – muita ignorância e preconceito sobre as outras confissões cristãs.
Irmãos e irmãs do Caribe, da América Central e do Sul em preparação para a 9.ª Assembléia Geral d0 CMI
“Todos os cristãos se professam discípulos do Senhor, mas têm pareceres diversos e caminham por rumos diferentes, como se o próprio Cristo estivesse dividido. Esta divisão, porém, contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do evangelho a toda criatura”
(Concílio Vaticano II – Unitatis redintegratio, 1)
uando é que nós, cristãos, teremos a lucidez e a coragem de reconhecer que nossa falta de unidade é uma causa fundamental de ateísmo?”
(Giuseppe M. Zanghí, filósofo e teólogo)
iante dos enormes problemas que o mundo enfrenta, diante da responsabilidade que temos de levar à frente o projeto de Deus para que a humanidade se realize plenamente e seja feliz, os cristãos retardam o avanço da história. Diante das tragédias da humanidade, opostas ao plano de Deus, podem os cristãos continuar se dando ao luxo atroz de trabalharem desunidos?”
(Enrique Cambón, teólogo)
s cristãos, pelo menos eles, renunciem a suas divisões, a suas posições, que se reconciliem, já que têm como ponto de referência um Deus que é Amor!”
(Roger Schutz, fundador da Comunidade de Taizé)
“Estou convencida que Deus não abandonou nenhuma das Igrejas durante estes séculos de divisão. Portanto, amanhã, com a reunificação, cada Igreja unida às outras, refletindo justamente a unidade de Deus, não só manterá a característica particular que foi desenvolvendo ao longo dos séculos, mas colocando-se em comunhão com todas as outras Igrejas, completar-se-á, fortalecer-se-á. Por isso, cada Igreja tornar-se-á, de certo modo, uma ‘especialista’ daquele determinado aspecto de verdade que ela mesma, ao longo dos séculos, foi aprofundando.”
(Chiara Lubich, fundadora do Movimento Focolare)
uvistes dez mil histórias sobre nós, que somos chamados protestantes. Se credes em apenas um milésimo destas histórias, deveis pensar muito mal de nós. (...) Daí se destrói completamente o amor fraternal; e cada grupo, encarando o outro como monstro, dá lugar à ira, ao ódio, à maledicência, a todo sentimento não-amistoso que, frequentemente, tem resultado em barbaridades desumanas, quase desconhecidas entre os pagãos.”
(John Wesley, fundador da Igreja Metodista)
nova atitude mental que o ecumenismo exige (...) leva cada Igreja a colocar Jesus Cristo no centro de seu sistema referencial, e não ela mesma, convencendo-se de que, se existe um retorno a ser feito, este cabe a cada uma delas de modo idêntico.
Este retorno é uma subida árdua do rio da história de cada Igreja, carregado de conquistas espirituais, mas também poluído pelas infidelidades de seus filhos, para chegar à nascente, onde encontramos a água pura da Palavra de Deus vivida com radicalidade e generosidade, e que nos revela o contorno preciso da Igreja de Jesus.”
(Sandra Ferreira Ribeiro, teóloga)
ecumenismo é um processo lento, às vezes desanimador, quando caímos na tentação de sentir e não escutar, de falar sem convicção, porque não é sempre fácil abandonar o conforto. Mas se o ecumenismo é uma estrada lenta e íngreme, como toda via de penitência, é também um caminho que, apesar de suas dificuldades, apresenta amplos espaços de alegria, paradas refrescantes, e permite também respirar a plenos pulmões o ar da comunhão.”
(Papa Bento XVI, durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, janeiro de 2007)
Igreja e igrejas
Encontro de Água - Declaração Ecumênica sobre a água como Direito Humano e bem público
mbora separadas, as Igrejas orientais têm verdadeiros sacramentos e, sobretudo, em virtude da sucessão apostólica, o Sacerdócio e a Eucaristia. Assim, são consideradas pela Igreja de Roma como “Igrejas particulares ou locais”. As comunidades cristãs, nascidas da Reforma do século 16, não têm a sucessão apostólica no sacramento da Ordem.
Segundo a doutrina católica, elas não conservam a genuína e íntegra substância do Mistério eucarístico e, portanto, não podem ser chamadas “Igrejas” em sentido próprio. Além delas, chamadas igrejas históricas, nasceram posteriormente as comunidades pentecostais e neo-pentecostais.
Concílio Vaticano II exortou “todos os fiéis a que, reconhecendo os sinais dos tempos, solicitamente participem do trabalho ecumênico” (Documento sobre o ecumenismo). Em nível central, isso se realiza através do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, criado em 1960. Existem diálogos bilaterais e multilaterais, tanto internacionais quanto em âmbito nacional.
Eis alguns diálogos intereclesiais dos quais a Igreja católica participa:
– Com as Igrejas Ortodoxas, a partir do “diálogo da caridade” iniciado na década de 1970 entre o patriarca Atenágoras e o papa Paulo VI.
– Com a Igreja Copta (uma antiga Igreja oriental). A partir de 1974, depois da declaração entre Paulo VI e o papa copta Shenouda III sobre divergências apenas de linguagem e não de doutrina.
– A Igreja católica vem mantendo diálogos constantes com as chamadas Comunidades da Reforma.
Conheça alguns documentos comuns: Com luteranos:
Declaração conjunta sobre a Doutrina de Justificação (1999).
Com a Aliança Reformada Mundial: - Para uma compreensão comum da Igreja (1990).
Com Anglicanos: Igreja como comunhão (1991).
grande teólogo reformado Oscar Cullmann afirmou:
“Devemos chegar à unidade não apesar, mas através da diversidade”.
Ele elencou os carismas essenciais de cada uma das três grandes tradições cristãs:
1.º Carismas “típicos” do protestantismo:
– a concentração sobre a Bíblia;
– a liberdade cristã, que favorece a abertura para o mundo.
2.º Carismas essenciais do catolicismo:
– a universalidade;
– a instituição (sendo um carisma, a organização protege o espírito: 1 Cor 14,33-40);
– o papado, com a condição de ser concebido como serviço petrino.
3.º Carismas próprios da Igreja ortodoxa:
– aprofundamento teológico do Espírito Santo;
– preservação das formas tradicionais da liturgia.
Iniciativas atuais (2006):
Celebração Ecumênica durante encontro da Conferência sobre História Latino-Americana
– Janeiro. Uma comissão internacional católico-reformada publicou o documento “A Igreja como Comunidade de Testemunho comum ao Reino de Deus”, em comemoração ao processo de diálogo, iniciado em 1970.
– Julho. A “Reunião de cúpula dos Chefes de Estado Religiosos”, promovida pelo Patriarca de Moscou, Alexis II, solicitou a adesão da Santa Sé.
– Novembro. O arcebispo de Canterbury e primaz da Comunhão Anglicana reza com o papa no Vaticano. Visita apostólica do papa à Turquia e encontro com Sua Santidade Bartolomeu I.
– Dezembro. O arcebispo de Atenas, Sua Beatitude Christodoulos, visita o papa no Vaticano.
1.º Renovação da Igreja, para que seja, cada vez mais, fiel ao evangelho.
2.º Conversão do coração (humildade, fraternidade, reconhecimento mútuo das faltas contra a unidade).
3.º União na oração, para impetrar a graça da unidade.
4.º Conhecimento mútuo: estudo das outras igrejas, segundo a verdade e na caridade.
5.º Formação ecumênica: o estudo da teologia e da história deve ser ministrado do ponto de vista e com sensibilidade ecumênica.
6.º Cooperação no campo social para enfrentar juntos, como cristãos, os problemas da nossa época.
CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2010 SERÁ ECUMÊNICA
Oração durante encontro ecumênico
presidente do CONIC, pastor Carlos Möller, recebeu do presidente da CNBB, dom Geraldo Lyrio Rocha, no dia 20 de agosto, a comunicação de que a Assembléia dos Bispos aprovou, em maio, o pedido de mais uma Campanha da Fraternidade Ecumênica em 2010 (a primeira foi em 2000 e a segunda em 2005). O pastor Carlos lembrou que o CONIC comemora, neste ano, 25 anos de fundação e para celebrar a data será realizado, de 15 a 17 de setembro, o Seminário “Ecumenismo e Missão – Para que todos sejam um”.
ECUMENISMO NÃO É DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO
nquanto o ecumenismo propõe a unidade entre os cristãos (católicos, protestantes, ortodoxos), o diálogo inter-religioso é um canal aberto entre cristãos e não-cristãos (judaísmo, islamismo, budismo, hinduísmo,...).
ESTRUTURAS ECUMÊNICAS
Celebração da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2005:
Dom João Braz; Pastor Luterano Renato Kühne e o
Bispo Anglicano Maurício de Andrade
• Conselho Mundial das Igrejas (CMI)
A principal organização ecumênica cristã mundial foi fundada em 1948, em Amsterdam, Holanda. Tem sede em Genebra, Suíça. Congrega mais de 340 denominações cristãs, que representam 500 milhões de fiéis, em 120 países, pelo menos.
Seu secretário geral atual é Samuel Kobia, metodista. A Igreja católica romana não participa da organização, mas mantém com ela grupos de trabalho em alguns departamentos, como a Comissão de Fé e Ordem e a Comissão de Missão e Evangelismo.
• Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC)
No Brasil, as Igrejas: - católica apostólica romana, católica ortodoxa siriana do Brasil, cristã reformada e as Igrejas protestantes históricas: - luterana, metodista, presbiteriana unida e episcopal anglicana do Brasil, pertencem ao CONIC, com sede em Brasília – DF. A entidade foi fundada em 1982. Procura aproximar as igrejas cristãs, promovendo debates e encaminhamentos práticos que levem à sua integração e à comunhão.
CURSOS SOBRE ECUMENISMO
CESEP – Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular
• Site: www.cesep.org.br • E-mail: cesep@cesep.org.br • Tel.: (11) 3105-1680
NOSSO CONVITE!
MUNDO e MISSÃO propõe aos seus leitores que se reúnam EM DEBATE nas escolas, paróquias, grupos de jovens, seminários, conventos, centros de formação... Depois, encaminhem, por favor, para nós, questionamentos, reflexões, opiniões, dúvidas, para que possamos compartilhar com os outros leitores.
Participem!
Enviem as conclusões (pessoais ou de grupo) para:
Editora MUNDO e MISSÃO
Rua Joaquim Távora n.º 686 – Vila Mariana
São Paulo – SP – 04015-011
E-mail: mundomissao@terra.com.br
A Igreja no Mundo
PIME-Net
Ecumenismo não está em crise, chega a sua maturidade
Fala a teóloga alemã Jutta Burggraf
- O ecumenismo não está em crise, «mas em uma situação de maior maturidade:
- vemos hoje mais claramente o que nos une e o que nos separa». É o que comenta a Zenit a especialista em ecumenismo Jutta Burggraf, alemã, professora de Teologia Sistemática e de Ecumenismo na Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra. O recente documento «Respostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina da Igreja», publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé, segundo a teóloga, «colocou o dedo na ferida e, ao mesmo tempo, assinalou em que direção devem ir os futuros diálogos ecumênicos».
- O novo texto da Congregação para a Doutrina da Fé recorda que não traz nenhuma novidade, mas que afirma a doutrina da Igreja perante algumas interpretações incorretas. Que tipo de erros se cometem, neste sentido, no movimento ecumênico?
- Burggraf: Efetivamente, pode-se considerar o ecumenismo como um movimento único – suscitado pelo próprio Espírito Santo –, cujo fim consiste em promover a unidade entre os cristãos em todo o mundo. Neste movimento participa cada uma das comunidades cristãs desde sua perspectiva própria. E cada uma tem sua compreensão específica sobre o que é a desejada unidade.
Atualmente, está ganhando muita influência a chamada «branch-theory», que foi elaborada pela Associação para a Promoção da Unidade dos Cristãos no século XIX e ampliada no século XX. Segundo essa teoria, o cristianismo entende-se como uma árvore.
O que as diversas confissões têm em comum é o tronco, do qual saem vários ramos exatamente iguais:
- a Igreja Católica, as Igrejas Ortodoxas e as Igrejas que saíram (direta ou indiretamente) da Reforma protestante.
Nós, católicos, não podemos aceitar essa teoria. Não buscamos uma super-Igreja (com uma concepção «federalista» da unidade». Segundo nossa fé, a unidade da Igreja de Cristo não é uma realidade futura, hoje inexistente, que teríamos de criar todos juntos. Nem tampouco é algo repartido entre diversas comunidades, que sustentam doutrinas às vezes contraditórias.
É bem mais uma realidade que, em seu núcleo essencial, já existe e sempre existiu, e que subsiste na Igreja Católica:
- está realizada nela – apesar de todas as debilidades de seus filhos – pela fidelidade do Senhor ao longo da história.
- Assim se pode dizer realmente que a unidade da Igreja já existe?
- Burggraf: O termo ecumenismo vem das palavras gregas «oikéin» (habitar) e «oikós» (casa) que tiveram diversos significados ao longo da história. Os cristãos as empregaram para falar da Igreja, a grande casa de Cristo.
A porta para entrar na Igreja é o Batismo válido, que se administra segundo o rito estabelecido e a fé recebida de Cristo. Esta fé deve abarcar ao menos os dois maiores mistérios que nos foram revelados: a Santíssima Trindade e a Encarnação. Em conseqüência, todas as pessoas batizadas nessas condições incorporaram-se a Cristo e «entraram» formalmente em sua casa. Podem ficar doentes e inclusive morrer (espiritualmente), mas ninguém pode tirar-lhes mais. Por isso – recorda o Concílio Vaticano II – não só os católicos são «cristãos», mas todos os batizados, em quanto que suas respectivas comunidades conservam ao menos esta fé mínima nos dois grandes mistérios mencionados.
«São nossos irmãos – disse Santo Agostinho – e não deixarão de sê-lo até que deixem de dizer:
“Pai nosso”». Em uma criança recém-nascida, a graça de Deus atua do mesmo modo, tanto se é batizada na Igreja Católica como se o é em uma Igreja Ortodoxa ou Evangélica.
- Em que consiste, então, o trabalho ecumênico desde a perspectiva católica?
- Burggraf: A Igreja convida a olhar a nossos irmãos na fé não só sob a perspectiva negativa do que «não são» (os não católicos), mas sob o prisma positivo do que «são» (os batizados). São os «outros cristãos», aos que estamos profundamente unidos: estamos na mesma casa!
A tarefa ecumênica não consiste, portanto, em criar a unidade, mas em fazê-la visível a todos os homens, superando as separações que impedem a Igreja de mostrar-se ao mundo tão esplêndida como realmente é.
Por esta razão, é necessário buscar uma forma eclesial que abarque, de um modo mais completo possível, as legítimas diversidades na teologia, na espiritualidade e no culto. Na medida em que conseguimos realizar uma pluralidade boa e sadia, «a Igreja resplandece – segundo o Papa João XXIII – mais bela ainda pela variedade dos ritos e, semelhante à filha do Rei soberano, aparece adornada com um vestido multicolor».
Segundo esta proposta positiva, um cristão não condena nem rechaça os «outros», mas busca tirar à luz a raiz comum de todas as crenças cristãs, e se alegra quando descobre nas outras Igrejas verdades e valores que talvez não tenha tido suficientemente em conta em sua vida pessoal. É compreensível que o Concílio Vaticano II, partindo desta perspectiva, tenha aberto o caminho a uma grande vitalidade e fecundidade. O abriu comprometidamente, em primeiro lugar, à própria Igreja Católica que tomou, de novo, consciência de purificar-se e renovar-se constantemente. A unidade, quando se der algum dia, será obra de Deus, «um dom que vem do alto». É preciso não esquecer nunca que o verdadeiro protagonista do movimento ecumênico é o Espírito Santo.
- Qual é o maior obstáculo ecumênico que se está enfrentando neste momento?
- Burggraf: É precisamente a eclesiologia. Portanto, o documento colocou o dedo na ferida e, ao mesmo tempo, assinalou em que direção deveriam ir os futuros diálogos ecumênicos. Segundo o Vaticano II, distinguem-se diversos modos de pertencer à casa de Cristo.
A pertença é plena se uma pessoa entrou formalmente – mediante o batismo – na Igreja e se une a ela através de um «triplo vínculo»:
- aceita toda a fé, todos os sacramentos e a autoridade suprema do Santo Padre. É o caso dos católicos. A pertença, em contrapartida, é não-plena se uma pessoa batizada rechaça um ou vários dos três vínculos (totalmente ou em parte). É o caso dos cristãos ortodoxos e evangélicos. No entanto, para a salvação não basta a mera pertença ao Corpo de Cristo, seja plena ou não. Todavia, mais necessária é a união como a Alma do Senhor que é – segundo a imagem que utilizamos – o Espírito Santo. Em outras palavras, somente uma pessoa em graça chegará à felicidade eterna com Deus. Pode ser um católico, um anglicano, luterano ou ortodoxo (e também um seguidor de outra religião).
As estruturas visíveis da Igreja são, certamente, necessárias. Mas em seu núcleo mais profundo, a Igreja é a união com Deus em Cristo. Quem é mais «Igreja»? Aquele que está mais unido a Cristo. Aquele que ama mais.
É significativo que Jesus Cristo nos coloque como modelo de caridade um «bom samaritano», quer dizer, uma pessoa considerada, naqueles tempos, como «herege».
Alberto Magno afirma:
- «Quem ajuda seu próximo em seus sofrimentos – sejam espirituais ou materiais – merece mais louvor que uma pessoa que constrói uma catedral em cada marco no caminho desde Colônia a Roma, para que se cante e reze nelas até o fim dos tempos.
Porque o Filho de Deus afirma: Não sofri a morte por uma catedral, nem pelos cantos e rezas, mas pelo homem».
- Pensa que hoje o ecumenismo goza de boa saúde?
- Burggraf: O diálogo ecumênico, em vários níveis, encontra-se em pleno desenvolvimento. Católicos, ortodoxos e protestantes aproximaram-se uns dos outros, conheceram-se mutuamente, deixaram para trás velhos preconceitos e clichês e se deram conta de que sua divisão é um escândalo para o mundo e contrária aos planos divinos. Podemos dizer, sem exagerar, que avançamos no caminho para a plena unidade nas últimas décadas mais que em vários séculos. No entanto, o «entusiasmo ecumênico» dos tempos posteriores ao Concílio diminuiu. Perdeu-se a ilusão – bastante estendida no mundo inteiro – de que as diferenças entre as diversas comunidades cristãs desapareceriam com relativa facilidade. Viu-se que o caminho é difícil e longo.
Mas não estamos em uma crise, mas em uma situação de maior maturidade:
- vemos hoje mais claramente o que nos une e o que nos separa.
Um ecumenismo sólido está baseado na convicção de que, apesar das dificuldades, devemos tentar colaborar, dialogar e, sobretudo, rezar juntos com a esperança de descobrir a unidade que de fato já existe.A Igreja no Mundo
PIME-Net
Ecumenismo precisa de «purificação das estruturas»
Entrevista ao presidente da Conferência Episcopal da Grécia
SIBIU, segunda-feira, 17 de setembro de 2007 (ZENIT.org). - O ecumenismo precisa de uma «purificação das estruturas» das Igrejas e um maior conhecimento recíproco entre os cristãos, afirma Dom Fragkiskos Papamanolis, ofm-cap, bispo de Syros, Milos e Santorini. O prelado – que comenta com ironia que é católico e não greco-católico – é também administrador apostólico de Creta e presidente da Conferência Episcopal da Grécia. Falando com Zenit sobre as iniciativas normais de colaboração com os ortodoxos em sua terra, Dom Papamanolis traça um breve balanço das experiências da recente III Assembléia Ecumênica de Sibiu (Romênia) e lança um chamado para que todos os cristãos celebrem a Páscoa no mesmo dia.
– Qual é a situação da comunidade católica na Grécia?
– Dom Papamanolis: Na Grécia, a presença católica é mínima quanto aos católicos de nacionalidade grega. Somos 0,5% da população, aproximadamente 50.000. Enquanto isso, nos últimos quinze anos, com a queda do comunismo, a abertura dos países da União Européia, e a situação instável no Oriente Médio, os católicos tiveram um aumento de 700%. De 50.000, passamos a ser 350.000. Como pude informar ao Papa, durante a visita «ad limina apostolorum», em outubro de 2006, por uma parte este fato nos conforta, mas por outra nos cria também muitos problemas, porque há concentrações de católicos em lugares nos quais não há presença da Igreja Católica, onde não temos nem sequer um lugar de culto e menos ainda sacerdotes. Por exemplo, na parte sul-oriental da ilha de Creta, na cidade de Ierapetra, há cerca de mil católicos e sua paróquia se encontra em Heraklion, a quase 130 quilômetros de distância. Em Ierapetra há jovens casais e crianças em idade escolar a quem ninguém ensina o catecismo. Ultimamente, alugamos um local comercial e o usamos como lugar de culto e encontros. O que gostaríamos é que as Igrejas das quais estes católicos provêm nos ajudassem. Mas em sua maioria são Igrejas pobres em pessoal e finanças, como por exemplo a Albânia.
– Pode nos dizer em que âmbitos sociais há melhores relações entre católicos e ortodoxos?
– Dom Papamanolis:
- Sobretudo, não existe um diálogo oficial entre a Igreja Católica e a Ortodoxa na Grécia. Mas naquelas cidades, ou naquelas ilhas, nas quais há, ainda que seja discreta, uma presença da Igreja Católica, e, ainda mais, onde tem sede um bispo católico, há boas relações entre os bispos (ortodoxo e católico) e entre o clero, e isso é um fato positivo que anima os fiéis a caminhar rumo à unidade. No que diz respeito a mim, posso dizer que, na ilha de Syros, da qual sou bispo há 33 anos, tenho ótimas relações com o homólogo, o metropolita ortodoxo Doroteo II, que está lá há apenas cinco anos. Impulsionamos iniciativas que edificam muito nossos fiéis.
Por exemplo, por ocasião das festas litúrgicas, como Páscoa e Natal, vamos juntos visitar os enfermos ao hospital e os anciãos das três residências da ilha. Este «juntos» mudou completamente o sentido de nossa visita, porque não é só filantropia, mas está carregada de um significado de unidade e de reconciliação entre nós. Outra iniciativa, posta em andamento há três anos, e que levamos adiante ao menos uma vez ao ano, é um almoço conjunto de sacerdotes católicos e ortodoxos. Uma vez eu disse ao metropolita Doroteo II que, se não podemos compartilhar o banquete eucarístico, podemos ao menos sentar-nos em torno de uma mesa para comer juntos, e discutir sem fórmulas pré-fabricadas. E isso é o que fazemos.
– Que diálogos, estabelecidos aqui em Sibiu, o senhor continuará ao voltar à Grécia?
– Dom Papamanolis:
- Pela primeira vez, algo que não sucedeu nas duas primeiras assembléias, por iniciativa da Igreja Ortodoxa, e junto às delegações das Igrejas Ortodoxas, Católica e Evangélica, mantivemos uma reunião em Atenas. Um fato saudado como um grande evento. Agora, chegamos a Sibiu, já não somos estrangeiros entre nós, falamos pela rua e intercambiamos brincadeiras de amigos. Em Sibiu, o presidente da Comissão para as Relações Intraortodoxas e Intercristãs da Igreja Ortodoxa da Grécia, o metropolita Ignácio de Volos, nos convidou para almoçar e decidimos seguir este diálogo logo. Sem dúvida, é um pequeno passo. Mas não se trata da simples iniciativa de um bispo, se pensamos que conta com a aprovação do Sacro Sínodo. Começamos assim, pouco a pouco, quase escondidos, diria. No fundo, quando se semeia, a semente se esconde, e depois germina e dá frutos abundantes.
– Para terminar, o senhor gostaria de dizer algo que o preocupe especialmente?
– Dom Papamanolis:
- Eu diria que nossa pequena delegação da Igreja Católica na Grécia apresentou, aqui em Sibiu, uma moção à presidência da III Assembléia Ecumênica, pedindo que se convide o Governo turco a respeitar o título de «ecumênico» associado ao Patriarca de Constantinopla. Dei este escrito nosso a vários bispos ortodoxos, como por exemplo ao chefe da delegação do patriarcado ecumênico, o metropolita Miguel da Áustria, que agradeceu muito esta iniciativa. Um segundo chamado que quero fazer chegar a todos é que deixem de lado todas as diferenças e que busquemos uma data para celebrar a Páscoa no mesmo dia. Apresentei por escrito esta moção, pedindo que se faça pressão, com insistência, para encontrar uma data comum, seja qual for, para que todos os cristãos festejem juntos esta celebração litúrgica. É decisivo. Porque se nós não o fizermos, virá Ciro para fazê-lo em nosso lugar. Sabem quem é Ciro? Era o rei da Pérsia que, com o edito de 358 a.C. permitiu aos judeus voltar e reconstruir o Templo de Jerusalém porque sozinhos não conseguiam chegar a um acordo.
Se nós, cristãos, não conseguimos acordar uma data comum para celebrar a Páscoa no mesmo dia, virão os diversos governos ateus dizer-nos:
- «Ou vocês chegam a um acordo, ou já não levaremos em conta sua Páscoa».
E, portanto, na Semana Santa se seguirá trabalhando normalmente, e o Domingo de Páscoa será um domingo como os demais. Como já aconteceu na França. Isso nos cria muitos problemas, para nós como Igreja e também para a sociedade. Pensem simplesmente no problema dos bancos, que durante a Semana Santa se fecham na Grécia e não em outras partes, ou nas famílias mistas, com um pai católico e outro ortodoxo. A próxima Páscoa a celebraremos nada menos que com 5 semanas de diferença. Aqueles que seguem a Igreja Católica e se remetem ao calendário gregoriano, celebrarão a Páscoa em 23 de março de 2008, enquanto que a Igreja Ortodoxa, que segue o calendário juliano, a festejará em 27 de abril. Nós, desde 1968, distanciando-nos não sem dor de Roma, graças a uma permissão especial do próprio Paulo VI, celebramos a Páscoa com os ortodoxos no mesmo dia, mas inclusive esta solução não está isenta de problemas.
Espero que todos possam dizer na Páscoa: «Cristo ressuscitou!». Sem uma Ressurreição por etapas.
Extraído do site da Pime - Net
PIME-Net
Ecumenismo não está em crise, chega a sua maturidade
Fala a teóloga alemã Jutta Burggraf
- O ecumenismo não está em crise, «mas em uma situação de maior maturidade:
- vemos hoje mais claramente o que nos une e o que nos separa». É o que comenta a Zenit a especialista em ecumenismo Jutta Burggraf, alemã, professora de Teologia Sistemática e de Ecumenismo na Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra. O recente documento «Respostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina da Igreja», publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé, segundo a teóloga, «colocou o dedo na ferida e, ao mesmo tempo, assinalou em que direção devem ir os futuros diálogos ecumênicos».
- O novo texto da Congregação para a Doutrina da Fé recorda que não traz nenhuma novidade, mas que afirma a doutrina da Igreja perante algumas interpretações incorretas. Que tipo de erros se cometem, neste sentido, no movimento ecumênico?
- Burggraf: Efetivamente, pode-se considerar o ecumenismo como um movimento único – suscitado pelo próprio Espírito Santo –, cujo fim consiste em promover a unidade entre os cristãos em todo o mundo. Neste movimento participa cada uma das comunidades cristãs desde sua perspectiva própria. E cada uma tem sua compreensão específica sobre o que é a desejada unidade.
Atualmente, está ganhando muita influência a chamada «branch-theory», que foi elaborada pela Associação para a Promoção da Unidade dos Cristãos no século XIX e ampliada no século XX. Segundo essa teoria, o cristianismo entende-se como uma árvore.
O que as diversas confissões têm em comum é o tronco, do qual saem vários ramos exatamente iguais:
- a Igreja Católica, as Igrejas Ortodoxas e as Igrejas que saíram (direta ou indiretamente) da Reforma protestante.
Nós, católicos, não podemos aceitar essa teoria. Não buscamos uma super-Igreja (com uma concepção «federalista» da unidade». Segundo nossa fé, a unidade da Igreja de Cristo não é uma realidade futura, hoje inexistente, que teríamos de criar todos juntos. Nem tampouco é algo repartido entre diversas comunidades, que sustentam doutrinas às vezes contraditórias.
É bem mais uma realidade que, em seu núcleo essencial, já existe e sempre existiu, e que subsiste na Igreja Católica:
- está realizada nela – apesar de todas as debilidades de seus filhos – pela fidelidade do Senhor ao longo da história.
- Assim se pode dizer realmente que a unidade da Igreja já existe?
- Burggraf: O termo ecumenismo vem das palavras gregas «oikéin» (habitar) e «oikós» (casa) que tiveram diversos significados ao longo da história. Os cristãos as empregaram para falar da Igreja, a grande casa de Cristo.
A porta para entrar na Igreja é o Batismo válido, que se administra segundo o rito estabelecido e a fé recebida de Cristo. Esta fé deve abarcar ao menos os dois maiores mistérios que nos foram revelados: a Santíssima Trindade e a Encarnação. Em conseqüência, todas as pessoas batizadas nessas condições incorporaram-se a Cristo e «entraram» formalmente em sua casa. Podem ficar doentes e inclusive morrer (espiritualmente), mas ninguém pode tirar-lhes mais. Por isso – recorda o Concílio Vaticano II – não só os católicos são «cristãos», mas todos os batizados, em quanto que suas respectivas comunidades conservam ao menos esta fé mínima nos dois grandes mistérios mencionados.
«São nossos irmãos – disse Santo Agostinho – e não deixarão de sê-lo até que deixem de dizer:
“Pai nosso”». Em uma criança recém-nascida, a graça de Deus atua do mesmo modo, tanto se é batizada na Igreja Católica como se o é em uma Igreja Ortodoxa ou Evangélica.
- Em que consiste, então, o trabalho ecumênico desde a perspectiva católica?
- Burggraf: A Igreja convida a olhar a nossos irmãos na fé não só sob a perspectiva negativa do que «não são» (os não católicos), mas sob o prisma positivo do que «são» (os batizados). São os «outros cristãos», aos que estamos profundamente unidos: estamos na mesma casa!
A tarefa ecumênica não consiste, portanto, em criar a unidade, mas em fazê-la visível a todos os homens, superando as separações que impedem a Igreja de mostrar-se ao mundo tão esplêndida como realmente é.
Por esta razão, é necessário buscar uma forma eclesial que abarque, de um modo mais completo possível, as legítimas diversidades na teologia, na espiritualidade e no culto. Na medida em que conseguimos realizar uma pluralidade boa e sadia, «a Igreja resplandece – segundo o Papa João XXIII – mais bela ainda pela variedade dos ritos e, semelhante à filha do Rei soberano, aparece adornada com um vestido multicolor».
Segundo esta proposta positiva, um cristão não condena nem rechaça os «outros», mas busca tirar à luz a raiz comum de todas as crenças cristãs, e se alegra quando descobre nas outras Igrejas verdades e valores que talvez não tenha tido suficientemente em conta em sua vida pessoal. É compreensível que o Concílio Vaticano II, partindo desta perspectiva, tenha aberto o caminho a uma grande vitalidade e fecundidade. O abriu comprometidamente, em primeiro lugar, à própria Igreja Católica que tomou, de novo, consciência de purificar-se e renovar-se constantemente. A unidade, quando se der algum dia, será obra de Deus, «um dom que vem do alto». É preciso não esquecer nunca que o verdadeiro protagonista do movimento ecumênico é o Espírito Santo.
- Qual é o maior obstáculo ecumênico que se está enfrentando neste momento?
- Burggraf: É precisamente a eclesiologia. Portanto, o documento colocou o dedo na ferida e, ao mesmo tempo, assinalou em que direção deveriam ir os futuros diálogos ecumênicos. Segundo o Vaticano II, distinguem-se diversos modos de pertencer à casa de Cristo.
A pertença é plena se uma pessoa entrou formalmente – mediante o batismo – na Igreja e se une a ela através de um «triplo vínculo»:
- aceita toda a fé, todos os sacramentos e a autoridade suprema do Santo Padre. É o caso dos católicos. A pertença, em contrapartida, é não-plena se uma pessoa batizada rechaça um ou vários dos três vínculos (totalmente ou em parte). É o caso dos cristãos ortodoxos e evangélicos. No entanto, para a salvação não basta a mera pertença ao Corpo de Cristo, seja plena ou não. Todavia, mais necessária é a união como a Alma do Senhor que é – segundo a imagem que utilizamos – o Espírito Santo. Em outras palavras, somente uma pessoa em graça chegará à felicidade eterna com Deus. Pode ser um católico, um anglicano, luterano ou ortodoxo (e também um seguidor de outra religião).
As estruturas visíveis da Igreja são, certamente, necessárias. Mas em seu núcleo mais profundo, a Igreja é a união com Deus em Cristo. Quem é mais «Igreja»? Aquele que está mais unido a Cristo. Aquele que ama mais.
É significativo que Jesus Cristo nos coloque como modelo de caridade um «bom samaritano», quer dizer, uma pessoa considerada, naqueles tempos, como «herege».
Alberto Magno afirma:
- «Quem ajuda seu próximo em seus sofrimentos – sejam espirituais ou materiais – merece mais louvor que uma pessoa que constrói uma catedral em cada marco no caminho desde Colônia a Roma, para que se cante e reze nelas até o fim dos tempos.
Porque o Filho de Deus afirma: Não sofri a morte por uma catedral, nem pelos cantos e rezas, mas pelo homem».
- Pensa que hoje o ecumenismo goza de boa saúde?
- Burggraf: O diálogo ecumênico, em vários níveis, encontra-se em pleno desenvolvimento. Católicos, ortodoxos e protestantes aproximaram-se uns dos outros, conheceram-se mutuamente, deixaram para trás velhos preconceitos e clichês e se deram conta de que sua divisão é um escândalo para o mundo e contrária aos planos divinos. Podemos dizer, sem exagerar, que avançamos no caminho para a plena unidade nas últimas décadas mais que em vários séculos. No entanto, o «entusiasmo ecumênico» dos tempos posteriores ao Concílio diminuiu. Perdeu-se a ilusão – bastante estendida no mundo inteiro – de que as diferenças entre as diversas comunidades cristãs desapareceriam com relativa facilidade. Viu-se que o caminho é difícil e longo.
Mas não estamos em uma crise, mas em uma situação de maior maturidade:
- vemos hoje mais claramente o que nos une e o que nos separa.
Um ecumenismo sólido está baseado na convicção de que, apesar das dificuldades, devemos tentar colaborar, dialogar e, sobretudo, rezar juntos com a esperança de descobrir a unidade que de fato já existe.A Igreja no Mundo
PIME-Net
Ecumenismo precisa de «purificação das estruturas»
Entrevista ao presidente da Conferência Episcopal da Grécia
SIBIU, segunda-feira, 17 de setembro de 2007 (ZENIT.org). - O ecumenismo precisa de uma «purificação das estruturas» das Igrejas e um maior conhecimento recíproco entre os cristãos, afirma Dom Fragkiskos Papamanolis, ofm-cap, bispo de Syros, Milos e Santorini. O prelado – que comenta com ironia que é católico e não greco-católico – é também administrador apostólico de Creta e presidente da Conferência Episcopal da Grécia. Falando com Zenit sobre as iniciativas normais de colaboração com os ortodoxos em sua terra, Dom Papamanolis traça um breve balanço das experiências da recente III Assembléia Ecumênica de Sibiu (Romênia) e lança um chamado para que todos os cristãos celebrem a Páscoa no mesmo dia.
– Qual é a situação da comunidade católica na Grécia?
– Dom Papamanolis: Na Grécia, a presença católica é mínima quanto aos católicos de nacionalidade grega. Somos 0,5% da população, aproximadamente 50.000. Enquanto isso, nos últimos quinze anos, com a queda do comunismo, a abertura dos países da União Européia, e a situação instável no Oriente Médio, os católicos tiveram um aumento de 700%. De 50.000, passamos a ser 350.000. Como pude informar ao Papa, durante a visita «ad limina apostolorum», em outubro de 2006, por uma parte este fato nos conforta, mas por outra nos cria também muitos problemas, porque há concentrações de católicos em lugares nos quais não há presença da Igreja Católica, onde não temos nem sequer um lugar de culto e menos ainda sacerdotes. Por exemplo, na parte sul-oriental da ilha de Creta, na cidade de Ierapetra, há cerca de mil católicos e sua paróquia se encontra em Heraklion, a quase 130 quilômetros de distância. Em Ierapetra há jovens casais e crianças em idade escolar a quem ninguém ensina o catecismo. Ultimamente, alugamos um local comercial e o usamos como lugar de culto e encontros. O que gostaríamos é que as Igrejas das quais estes católicos provêm nos ajudassem. Mas em sua maioria são Igrejas pobres em pessoal e finanças, como por exemplo a Albânia.
– Pode nos dizer em que âmbitos sociais há melhores relações entre católicos e ortodoxos?
– Dom Papamanolis:
- Sobretudo, não existe um diálogo oficial entre a Igreja Católica e a Ortodoxa na Grécia. Mas naquelas cidades, ou naquelas ilhas, nas quais há, ainda que seja discreta, uma presença da Igreja Católica, e, ainda mais, onde tem sede um bispo católico, há boas relações entre os bispos (ortodoxo e católico) e entre o clero, e isso é um fato positivo que anima os fiéis a caminhar rumo à unidade. No que diz respeito a mim, posso dizer que, na ilha de Syros, da qual sou bispo há 33 anos, tenho ótimas relações com o homólogo, o metropolita ortodoxo Doroteo II, que está lá há apenas cinco anos. Impulsionamos iniciativas que edificam muito nossos fiéis.
Por exemplo, por ocasião das festas litúrgicas, como Páscoa e Natal, vamos juntos visitar os enfermos ao hospital e os anciãos das três residências da ilha. Este «juntos» mudou completamente o sentido de nossa visita, porque não é só filantropia, mas está carregada de um significado de unidade e de reconciliação entre nós. Outra iniciativa, posta em andamento há três anos, e que levamos adiante ao menos uma vez ao ano, é um almoço conjunto de sacerdotes católicos e ortodoxos. Uma vez eu disse ao metropolita Doroteo II que, se não podemos compartilhar o banquete eucarístico, podemos ao menos sentar-nos em torno de uma mesa para comer juntos, e discutir sem fórmulas pré-fabricadas. E isso é o que fazemos.
– Que diálogos, estabelecidos aqui em Sibiu, o senhor continuará ao voltar à Grécia?
– Dom Papamanolis:
- Pela primeira vez, algo que não sucedeu nas duas primeiras assembléias, por iniciativa da Igreja Ortodoxa, e junto às delegações das Igrejas Ortodoxas, Católica e Evangélica, mantivemos uma reunião em Atenas. Um fato saudado como um grande evento. Agora, chegamos a Sibiu, já não somos estrangeiros entre nós, falamos pela rua e intercambiamos brincadeiras de amigos. Em Sibiu, o presidente da Comissão para as Relações Intraortodoxas e Intercristãs da Igreja Ortodoxa da Grécia, o metropolita Ignácio de Volos, nos convidou para almoçar e decidimos seguir este diálogo logo. Sem dúvida, é um pequeno passo. Mas não se trata da simples iniciativa de um bispo, se pensamos que conta com a aprovação do Sacro Sínodo. Começamos assim, pouco a pouco, quase escondidos, diria. No fundo, quando se semeia, a semente se esconde, e depois germina e dá frutos abundantes.
– Para terminar, o senhor gostaria de dizer algo que o preocupe especialmente?
– Dom Papamanolis:
- Eu diria que nossa pequena delegação da Igreja Católica na Grécia apresentou, aqui em Sibiu, uma moção à presidência da III Assembléia Ecumênica, pedindo que se convide o Governo turco a respeitar o título de «ecumênico» associado ao Patriarca de Constantinopla. Dei este escrito nosso a vários bispos ortodoxos, como por exemplo ao chefe da delegação do patriarcado ecumênico, o metropolita Miguel da Áustria, que agradeceu muito esta iniciativa. Um segundo chamado que quero fazer chegar a todos é que deixem de lado todas as diferenças e que busquemos uma data para celebrar a Páscoa no mesmo dia. Apresentei por escrito esta moção, pedindo que se faça pressão, com insistência, para encontrar uma data comum, seja qual for, para que todos os cristãos festejem juntos esta celebração litúrgica. É decisivo. Porque se nós não o fizermos, virá Ciro para fazê-lo em nosso lugar. Sabem quem é Ciro? Era o rei da Pérsia que, com o edito de 358 a.C. permitiu aos judeus voltar e reconstruir o Templo de Jerusalém porque sozinhos não conseguiam chegar a um acordo.
Se nós, cristãos, não conseguimos acordar uma data comum para celebrar a Páscoa no mesmo dia, virão os diversos governos ateus dizer-nos:
- «Ou vocês chegam a um acordo, ou já não levaremos em conta sua Páscoa».
E, portanto, na Semana Santa se seguirá trabalhando normalmente, e o Domingo de Páscoa será um domingo como os demais. Como já aconteceu na França. Isso nos cria muitos problemas, para nós como Igreja e também para a sociedade. Pensem simplesmente no problema dos bancos, que durante a Semana Santa se fecham na Grécia e não em outras partes, ou nas famílias mistas, com um pai católico e outro ortodoxo. A próxima Páscoa a celebraremos nada menos que com 5 semanas de diferença. Aqueles que seguem a Igreja Católica e se remetem ao calendário gregoriano, celebrarão a Páscoa em 23 de março de 2008, enquanto que a Igreja Ortodoxa, que segue o calendário juliano, a festejará em 27 de abril. Nós, desde 1968, distanciando-nos não sem dor de Roma, graças a uma permissão especial do próprio Paulo VI, celebramos a Páscoa com os ortodoxos no mesmo dia, mas inclusive esta solução não está isenta de problemas.
Espero que todos possam dizer na Páscoa: «Cristo ressuscitou!». Sem uma Ressurreição por etapas.
Extraído do site da Pime - Net
Evangelização - Libertação
uem acolher uma criança como esta, em meu nome, é a mim que acolhe” (Mt 18, 5). Ressaltando este mandamento de Cristo, o Santo Padre dirigiu sua mensagem a todos os fiéis e a todas as pessoas de boa vontade, durante a última quaresma. Ele também escreveu: “Penso, com reconhecida admiração, em quantos cuidam da formação da infância em dificuldade e aliviam os sofrimentos das crianças e dos seus familiares, causados pelos conflitos e a violência, pela falta de alimentos e de água, pela emigração forçada e por tantas formas de injustiça existentes no mundo”.
Às vezes, ouvem-se murmúrios errôneos sobre os bens da Igreja, do Vaticano e de seus ministros. Apesar de falsos, tais ruídos confundem a mente ingênua de muitos “cristãos”, com limitada consciência sobre as ações pastorais e os testemunhos de solidariedade que a Igreja desenvolve nos seus projetos sociais. As contribuições dos cristãos alicerçam os programas mantidos pelo Vaticano, através do Pontifício Conselho Cor Unum (Um só coração), o instrumento da caridade do Papa.
Graças à generosidade dos fiéis, Cor Unum, por incumbência do Pontífice, consegue ajudar muitas comunidades de países em vias de desenvolvimento, de modo a favorecer o seu crescimento moral e material. Outras ajudas são distribuídas para instituições eclesiais que se ocupam da assistência aos excluídos: crianças de rua, idosos abandonados, mulheres agredidas, sem-teto, refugiados.
Nesta edição, Mundo e Missão oferece um quadro sintético do que o papa, através do Pontifício Conselho Cor Unum, conseguiu realizar concretamente no ano passado (2003), para sustentar as obras de muitas pessoas abnegadas, em favor das vítimas de flagelos naturais ou de calamidades provocadas pela ganância humana sobre os mais miseráveis.
Fundações
No âmbito do Cor Unum trabalham duas Fundações: a primeira é a Fundação João Paulo II para o Sahel.
Foi instituída em 1984, como resposta ao urgente apelo lançado pelo Santo Padre no dia 10 de maio de 1980, de Uagadugu (Burkina Faso), em favor das populações atormentadas pela estiagem e pela desertificação na região saheliana.
Mais de 3.500 projetos comunitários foram financiados pela Fundação, desde suas origens, a um custo superior a trinta milhões de dólares. No ano de 2003, o número de projetos financiados subiu para 235, num total de 2.474.305,00 euros.
A tabela acima especifica a distribuição dos projetos em 2003:
A segunda é a Fundação Populorum Progressio, a serviço das populações indígenas, mestiças e afro-americanas camponesas pobres da América Latina. Foi criada pelo Papa em 1992, por ocasião do 5.º Centenário do início da Evangelização na América Latina, e propõe-se sustentar micro-projetos de promoção humana integral.
É mantida especialmente pela Conferência Episcopal Italiana, através do Comitê para as Intervenções Caritativas em favor do Terceiro Mundo, por fiéis e por instituições religiosas. Nos seus primeiros doze anos de vida, financiou mais de 1500 micro-projetos, investindo mais de 15 milhões de dólares americanos.
Veja na tabela abaixo os seus projetos aprovados e distribuídos em 2003.
Além dos investimentos nas Fundações já citadas, o Cor Unum distribuiu 1.680.688 dólares em socorros de emergência e na promoção humana em várias partes do mundo, como se pode ler na tabela acima. Com estas atividades, o Cor Unum constitui um instrumento de testemunho concreto do amor de Cristo pelos pobres.
Outras organizações católicas, espalhadas pelo mundo, também diminuem o sofrimento humano e devolvem a dignidade aos mais necessitados. Há um enorme trabalho desenvolvido pelas várias Caritas, pela Ajuda à Igreja que Sofre, pelas várias Obras quaresmais (no Brasil, a Campanha da Fraternidade), pelas Congregações religiosas, Associações de leigos e Organismos de Voluntariado.
Seus agentes não desenvolvem seu serviço como simples delegados da comunidade, mas como verdadeiros canais, através dos quais difundem-se a participação e a partilha ativa dos benfeitores, no testemunho concreto da caridade de Jesus. Cristo, que, “tornando-se obediente até a morte e morte de cruz” (Fl 2, 8), assumiu sobre Ele o sofrimento humano, iluminando-o com a luz esplendorosa da ressurreição.
(L´Osservatore Romano – 2004 – n.º 16)
uem acolher uma criança como esta, em meu nome, é a mim que acolhe” (Mt 18, 5). Ressaltando este mandamento de Cristo, o Santo Padre dirigiu sua mensagem a todos os fiéis e a todas as pessoas de boa vontade, durante a última quaresma. Ele também escreveu: “Penso, com reconhecida admiração, em quantos cuidam da formação da infância em dificuldade e aliviam os sofrimentos das crianças e dos seus familiares, causados pelos conflitos e a violência, pela falta de alimentos e de água, pela emigração forçada e por tantas formas de injustiça existentes no mundo”.
Às vezes, ouvem-se murmúrios errôneos sobre os bens da Igreja, do Vaticano e de seus ministros. Apesar de falsos, tais ruídos confundem a mente ingênua de muitos “cristãos”, com limitada consciência sobre as ações pastorais e os testemunhos de solidariedade que a Igreja desenvolve nos seus projetos sociais. As contribuições dos cristãos alicerçam os programas mantidos pelo Vaticano, através do Pontifício Conselho Cor Unum (Um só coração), o instrumento da caridade do Papa.
Graças à generosidade dos fiéis, Cor Unum, por incumbência do Pontífice, consegue ajudar muitas comunidades de países em vias de desenvolvimento, de modo a favorecer o seu crescimento moral e material. Outras ajudas são distribuídas para instituições eclesiais que se ocupam da assistência aos excluídos: crianças de rua, idosos abandonados, mulheres agredidas, sem-teto, refugiados.
Nesta edição, Mundo e Missão oferece um quadro sintético do que o papa, através do Pontifício Conselho Cor Unum, conseguiu realizar concretamente no ano passado (2003), para sustentar as obras de muitas pessoas abnegadas, em favor das vítimas de flagelos naturais ou de calamidades provocadas pela ganância humana sobre os mais miseráveis.
Fundações
No âmbito do Cor Unum trabalham duas Fundações: a primeira é a Fundação João Paulo II para o Sahel.
Foi instituída em 1984, como resposta ao urgente apelo lançado pelo Santo Padre no dia 10 de maio de 1980, de Uagadugu (Burkina Faso), em favor das populações atormentadas pela estiagem e pela desertificação na região saheliana.
Mais de 3.500 projetos comunitários foram financiados pela Fundação, desde suas origens, a um custo superior a trinta milhões de dólares. No ano de 2003, o número de projetos financiados subiu para 235, num total de 2.474.305,00 euros.
A tabela acima especifica a distribuição dos projetos em 2003:
A segunda é a Fundação Populorum Progressio, a serviço das populações indígenas, mestiças e afro-americanas camponesas pobres da América Latina. Foi criada pelo Papa em 1992, por ocasião do 5.º Centenário do início da Evangelização na América Latina, e propõe-se sustentar micro-projetos de promoção humana integral.
É mantida especialmente pela Conferência Episcopal Italiana, através do Comitê para as Intervenções Caritativas em favor do Terceiro Mundo, por fiéis e por instituições religiosas. Nos seus primeiros doze anos de vida, financiou mais de 1500 micro-projetos, investindo mais de 15 milhões de dólares americanos.
Veja na tabela abaixo os seus projetos aprovados e distribuídos em 2003.
Além dos investimentos nas Fundações já citadas, o Cor Unum distribuiu 1.680.688 dólares em socorros de emergência e na promoção humana em várias partes do mundo, como se pode ler na tabela acima. Com estas atividades, o Cor Unum constitui um instrumento de testemunho concreto do amor de Cristo pelos pobres.
Outras organizações católicas, espalhadas pelo mundo, também diminuem o sofrimento humano e devolvem a dignidade aos mais necessitados. Há um enorme trabalho desenvolvido pelas várias Caritas, pela Ajuda à Igreja que Sofre, pelas várias Obras quaresmais (no Brasil, a Campanha da Fraternidade), pelas Congregações religiosas, Associações de leigos e Organismos de Voluntariado.
Seus agentes não desenvolvem seu serviço como simples delegados da comunidade, mas como verdadeiros canais, através dos quais difundem-se a participação e a partilha ativa dos benfeitores, no testemunho concreto da caridade de Jesus. Cristo, que, “tornando-se obediente até a morte e morte de cruz” (Fl 2, 8), assumiu sobre Ele o sofrimento humano, iluminando-o com a luz esplendorosa da ressurreição.
(L´Osservatore Romano – 2004 – n.º 16)
Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização Libertação
Dom Helder Câmara, um marco na Igreja do Brasil
Dom Helder Câmara foi, sem dúvida, um marco na Igreja do Brasil dos últimos 50 anos, que com seu exemplo e modo de agir, ajudou a mudar profundamente. Sua influência não se limitou ao Brasil: as numerosas viagens que fez ao exterior, às vezes dificultadas por mal-entendidos das autoridades militares e religiosas, fizeram dele uma figura mundialmente conhecida, amada e não pouco contestada.
Foi um dos idealizadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), organização copiada por bispos de outros países, e seu primeiro presidente. No Rio de Janeiro, atuou como bispo coadjuntor e, em Olinda e Recife, como arcebispo.
Pioneiro da Teologia da Libertação
"Quando dou de comer aos pobres, chamam-me santo, quando respondo porque é que os pobres têm fome - chamam-me comunista": foi assim que dom Helder resumiu suas dificuldades com as autoridades políticas e religiosas, quando era contestado a propósito de sua obra social e profética em favor de uma maior igualdade e justiça no país e dentro da Igreja. Não raramente se referiam a ele como o "bispo vermelho", especialmente nos duros tempos da ditadura.
Ele desejava uma Igreja mais participativa, orientada para a defesa dos pobres e a favor dos movimentos sociais. Quando foi substituído, em 1985, em seu serviço como arcebispo de Olinda e Recife, retirou-se para viver de maneira simples, coerente, até o fim da vida, com seu posicionamento a respeito da pobreza. Sua batina branca era surrada, celebrava suas missas sem pompas, morava numa casa modesta na periferia da cidade do Recife; dizem que nunca aceitou um convite para comer em restaurantes.
Sua obra, de fato, não o apresenta como teólogo, filósofo ou revolucionário teórico, mas como um pastor, no sentido mais amplos da palavra, preocupado com o bem-estar social e religioso do povo que ele amava.
Sua atuação transformadora começou a se manifestar, quando foi nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro, aos 43 anos. Além de ter sido um dos fundadores da CNBB (1952), também o foi da Conferência Episcopal latino-americana (CELAM). No inicio dos anos 60, dom Helder dedicou-se à preparação do Concílio Vaticano II convocado por João XXIII.
Um legado de obras sociais
Realizando seus sonhos e suas aspirações de justiça social e caridade, dom Helder deixou várias obras como a Obra do Frei Francisco, criada no Rio de Janeiro; iniciou o Banco da Providência, hoje ampliado, que centralizava doações e as distribuía entre a população pobre. Também criou no Rio de Janeiro um projeto de urbanização de favelas, conhecido como Cruzada São Sebastião.
Em Pernambuco, realizou a primeira experiência de reforma agrária, comprando terras na Zona da Mata e assentando trabalhadores rurais.
Ardente defensor dos direitos humanos
Depois do golpe militar, após um primeiro período de convivência pacífica com o exército, ao ver a violação brutal dos direito humanos com a caça aos chamados comunistas, dom Helder passou a atuar em defesa dos presos políticos e contra a tortura no Brasil, cuja existência o governo militar procurava negar de todas as formas. Foi o período em que enfrentou as maiores dificuldades, mas também de maior projeção no exterior, tendo sido acusado pelos militares e por parte do clero conservador de promover atividades comunistas no País. O religioso passou a ser visto como simpatizante da esquerda e seu trabalho em defesa de uma Igreja mais aberta incomodava o regime militar. Através de documentos secretos, divulgados no livro "Dom Helder Câmara - entre o poder e a profecia", de Nelson Piletti e Walter Praxedes, descobriu-se que o governo Médici (1969-1974) organizou uma campanha contra a escolha do religioso para o Nobel da Paz, indicação promovida pelo episcopado alemão.
O bispo dos pobres soube atrair as atenções de todos os que trabalham e sofrem em favor de uma sociedade mais justa, não importa qual seja seu credo. Por isso, publicamos aqui parte de um artigo de Alexandre Gomes, muçulmano praticante, em homenagem a Dom Helder.
A solidariedade radical de Dom Helder Câmara
Alexandre Gomes
"Todas as revoluções não são obrigatoriamente boas (...) mas a história mostra que algumas eram necessárias e produziram bons frutos". (Dom Helder Câmara)
Pode parecer estranho, e realmente deve ser, que alguém fora do meio católico, ligado a outra fé, se sensibilize com o falecimento desta notável figura humana que foi o arcebispo de Olinda e Recife. Mas é certo que esta estranheza só é realmente estranha a quem não o conheceu.
Ainda que recorrendo ao que provavelmente será um chavão na imprensa nos próximos dias, é impossível não ver o contraste entre a figura meiga e franzina do arcebispo frente a toda a sua força interior. Homem incapaz de conhecer o medo - o que demonstra sobretudo a intensidade da sua fé e a certeza de estar agindo com correção - dom Helder Câmara teve a coragem de enfrentar tanto os algozes do regime militar como as forças conservadoras dentro da hierarquia da qual fez parte.
Jamais perguntou se os perseguidos políticos que defendia eram católicos, protestantes, judeus ou ateus: defendia-os não por um sentimento corporativo, mas sobretudo porque nele os valores humanos - e cristãos - estavam enraizados demais para fazer esta distinção. Alguém já disse que é fácil amar ao amigo, muito mais difícil é amar àquele que nos contesta e dom Helder foi capaz deste amor incondicional, a ponto de colocar a vida e a segurança em risco.
Sua enorme dedicação não condizia com sua figura franzina e humilde. Ele agia não por considerar a ação um mérito, mas porque a tinha no seu íntimo como o dever de um cristão. Não agia para ser louvado como exemplo de cristão, mas porque uma ética profundamente arraigada em seu espírito não lhe mostrava outro caminho senão o que ele tão heroicamente seguiu.
Não tentou jamais ser herói, mas apenas um cristão consciente de suas responsabilidades com a humanidade; mas este desprendimento o fez ainda mais heróico e exemplar. É certamente um dos melhores exemplos que se pode ter de uma figura humana rara para a qual até a omissão - entendida como não fazer tudo que estivesse ao seu alcance pelos seus semelhantes - era um pecado terrível.
Dom Helder foi mais que um símbolo desta luta contra o individualismo, opondo a ele uma solidariedade radical que encarna o sentimento de Misericórdia extrema tão pregado e tão pouco colocado em prática pelas mais diversas fés.
Talvez isto explique porque a figura dele é tão querida até para quem não compartilha da crença cristã, como eu que sou muçulmano. Afinal ele se tornou um símbolo daquela dedicação ao próximo que todos os verdadeiros crentes de qualquer fé só podem admirar como um sinal da Misericórdia de Deus para com os homens.
Evangelização Libertação
Dom Helder Câmara, um marco na Igreja do Brasil
Dom Helder Câmara foi, sem dúvida, um marco na Igreja do Brasil dos últimos 50 anos, que com seu exemplo e modo de agir, ajudou a mudar profundamente. Sua influência não se limitou ao Brasil: as numerosas viagens que fez ao exterior, às vezes dificultadas por mal-entendidos das autoridades militares e religiosas, fizeram dele uma figura mundialmente conhecida, amada e não pouco contestada.
Foi um dos idealizadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), organização copiada por bispos de outros países, e seu primeiro presidente. No Rio de Janeiro, atuou como bispo coadjuntor e, em Olinda e Recife, como arcebispo.
Pioneiro da Teologia da Libertação
"Quando dou de comer aos pobres, chamam-me santo, quando respondo porque é que os pobres têm fome - chamam-me comunista": foi assim que dom Helder resumiu suas dificuldades com as autoridades políticas e religiosas, quando era contestado a propósito de sua obra social e profética em favor de uma maior igualdade e justiça no país e dentro da Igreja. Não raramente se referiam a ele como o "bispo vermelho", especialmente nos duros tempos da ditadura.
Ele desejava uma Igreja mais participativa, orientada para a defesa dos pobres e a favor dos movimentos sociais. Quando foi substituído, em 1985, em seu serviço como arcebispo de Olinda e Recife, retirou-se para viver de maneira simples, coerente, até o fim da vida, com seu posicionamento a respeito da pobreza. Sua batina branca era surrada, celebrava suas missas sem pompas, morava numa casa modesta na periferia da cidade do Recife; dizem que nunca aceitou um convite para comer em restaurantes.
Sua obra, de fato, não o apresenta como teólogo, filósofo ou revolucionário teórico, mas como um pastor, no sentido mais amplos da palavra, preocupado com o bem-estar social e religioso do povo que ele amava.
Sua atuação transformadora começou a se manifestar, quando foi nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro, aos 43 anos. Além de ter sido um dos fundadores da CNBB (1952), também o foi da Conferência Episcopal latino-americana (CELAM). No inicio dos anos 60, dom Helder dedicou-se à preparação do Concílio Vaticano II convocado por João XXIII.
Um legado de obras sociais
Realizando seus sonhos e suas aspirações de justiça social e caridade, dom Helder deixou várias obras como a Obra do Frei Francisco, criada no Rio de Janeiro; iniciou o Banco da Providência, hoje ampliado, que centralizava doações e as distribuía entre a população pobre. Também criou no Rio de Janeiro um projeto de urbanização de favelas, conhecido como Cruzada São Sebastião.
Em Pernambuco, realizou a primeira experiência de reforma agrária, comprando terras na Zona da Mata e assentando trabalhadores rurais.
Ardente defensor dos direitos humanos
Depois do golpe militar, após um primeiro período de convivência pacífica com o exército, ao ver a violação brutal dos direito humanos com a caça aos chamados comunistas, dom Helder passou a atuar em defesa dos presos políticos e contra a tortura no Brasil, cuja existência o governo militar procurava negar de todas as formas. Foi o período em que enfrentou as maiores dificuldades, mas também de maior projeção no exterior, tendo sido acusado pelos militares e por parte do clero conservador de promover atividades comunistas no País. O religioso passou a ser visto como simpatizante da esquerda e seu trabalho em defesa de uma Igreja mais aberta incomodava o regime militar. Através de documentos secretos, divulgados no livro "Dom Helder Câmara - entre o poder e a profecia", de Nelson Piletti e Walter Praxedes, descobriu-se que o governo Médici (1969-1974) organizou uma campanha contra a escolha do religioso para o Nobel da Paz, indicação promovida pelo episcopado alemão.
O bispo dos pobres soube atrair as atenções de todos os que trabalham e sofrem em favor de uma sociedade mais justa, não importa qual seja seu credo. Por isso, publicamos aqui parte de um artigo de Alexandre Gomes, muçulmano praticante, em homenagem a Dom Helder.
A solidariedade radical de Dom Helder Câmara
Alexandre Gomes
"Todas as revoluções não são obrigatoriamente boas (...) mas a história mostra que algumas eram necessárias e produziram bons frutos". (Dom Helder Câmara)
Pode parecer estranho, e realmente deve ser, que alguém fora do meio católico, ligado a outra fé, se sensibilize com o falecimento desta notável figura humana que foi o arcebispo de Olinda e Recife. Mas é certo que esta estranheza só é realmente estranha a quem não o conheceu.
Ainda que recorrendo ao que provavelmente será um chavão na imprensa nos próximos dias, é impossível não ver o contraste entre a figura meiga e franzina do arcebispo frente a toda a sua força interior. Homem incapaz de conhecer o medo - o que demonstra sobretudo a intensidade da sua fé e a certeza de estar agindo com correção - dom Helder Câmara teve a coragem de enfrentar tanto os algozes do regime militar como as forças conservadoras dentro da hierarquia da qual fez parte.
Jamais perguntou se os perseguidos políticos que defendia eram católicos, protestantes, judeus ou ateus: defendia-os não por um sentimento corporativo, mas sobretudo porque nele os valores humanos - e cristãos - estavam enraizados demais para fazer esta distinção. Alguém já disse que é fácil amar ao amigo, muito mais difícil é amar àquele que nos contesta e dom Helder foi capaz deste amor incondicional, a ponto de colocar a vida e a segurança em risco.
Sua enorme dedicação não condizia com sua figura franzina e humilde. Ele agia não por considerar a ação um mérito, mas porque a tinha no seu íntimo como o dever de um cristão. Não agia para ser louvado como exemplo de cristão, mas porque uma ética profundamente arraigada em seu espírito não lhe mostrava outro caminho senão o que ele tão heroicamente seguiu.
Não tentou jamais ser herói, mas apenas um cristão consciente de suas responsabilidades com a humanidade; mas este desprendimento o fez ainda mais heróico e exemplar. É certamente um dos melhores exemplos que se pode ter de uma figura humana rara para a qual até a omissão - entendida como não fazer tudo que estivesse ao seu alcance pelos seus semelhantes - era um pecado terrível.
Dom Helder foi mais que um símbolo desta luta contra o individualismo, opondo a ele uma solidariedade radical que encarna o sentimento de Misericórdia extrema tão pregado e tão pouco colocado em prática pelas mais diversas fés.
Talvez isto explique porque a figura dele é tão querida até para quem não compartilha da crença cristã, como eu que sou muçulmano. Afinal ele se tornou um símbolo daquela dedicação ao próximo que todos os verdadeiros crentes de qualquer fé só podem admirar como um sinal da Misericórdia de Deus para com os homens.
Atualidades no Brasil
Catequese, Caminho para o Discipulado
2009 ano Catequético
O Ano Catequético que, desde o 2.º Domingo de Páscoa vivenciamos, tem o objetivo de dar novo impulso à catequese como serviço eclesial e como caminho para o discipulado. A catequese é um processo permanente de educação da fé. Portanto, o discipulado acontece no mundo e está aberto às necessidades e desafios da realidade. É o que você lerá a seguir, nas palavras de dom Orlando Brandes, arcebispo de Londrina-PR.
Dom Orlando Brandes
1.º O Ano Catequético tem o objetivo de implantar a iniciação cristã como critério fundamental da catequese no Brasil. Iniciação cristã significa:
- encantamento por Jesus Cristo e seu reino, conversão permanente, engajamento comunitário, discipulado com aprofundamento bíblico, vivência litúrgica, celebrativa, orante e grande ousadia missionária.
2.º O Ano Catequético quer ser uma avaliação e um lançamento do ministério catequético. Precisamos de uma catequese bíblica, que envolva a família, que leve a uma participação ativa e afetiva na comunidade e que colabore na transformação do mundo. Tudo começa a “partir de Cristo Jesus”. Quanto mais encantamento, maior engajamento.
3.º O Ano Catequético quer bater na porta do coração dos bispos e dos padres. Eles são a mola propulsora da catequese. Toda a comunidade catequiza com sua liturgia, seus cantos, suas pastorais, movimentos e forças de evangelização. Precisamos de mais homens e casais na catequese. Cada paróquia deve ter a organização paroquial da catequese. Não podemos continuar perdendo nossos catequizandos após a Primeira Eucaristia e a Crisma.
4.º O Ano Catequético espera que os Grupos de Refl exão e pequenas comunidades sejam prolongamento da catequese nas casas e famílias. As pequenas comunidades e Grupos, como também os grupos de adolescentes e jovens, são a continuidade da catequese. Todo catequista deve apoiar os Grupos, porque eles são centros de catequese semanal.
5.º O Ano Catequético pede que cada diocese, região pastoral, paróquia e comunidade realizem gestos bem concretos em prol do revigoramento catequético.
Precisamos vencer alguns problemas como:
- rotatividade, falta de formação, ausência dos padres, desconhecimento bíblico, desleixo da família e alienação da comunidade.
Dom Orlando Brandes em cerimônia litúrgica
6.º O Ano Catequético não pode ficar na teoria, nos desejos e intenções. É preciso realização, opção, decisão e pé no chão. A catequese precisa articular-se com as pastorais e vice-versa. Precisamos melhorar a catequese com adultos, a catequese com pessoas especiais, a catequese urbana, a catequese familiar. Desafios são possibilidades de soluções.
7.º O Ano Catequético lembra, mais uma vez, que a infância, o namoro, o noivado, a gravidez são etapas preciosas para uma catequese desde a raiz, e não de verniz. Comecemos a catequese o quanto mais cedo possível. Antes da televisão, do vídeo game, da internet e do celular. É preciso chegar antes e chegar encantando, cativando, atraindo. Catequese deve começar aos seis anos, não é? Não esqueçamos que a TV é a primeira catequista de nossas crianças para torná-las consumistas.
8.º Catequese atraente, o quanto mais cedo possível, catequese para a vida e como um processo orgânico, duradouro, contínuo, eis que o Ano Catequético quer reafirmar.
Fonte: JC – Jornal da Comunidade,
Publicação da Arquidiocese de Londrina
Catequese, Caminho para o Discipulado
2009 ano Catequético
O Ano Catequético que, desde o 2.º Domingo de Páscoa vivenciamos, tem o objetivo de dar novo impulso à catequese como serviço eclesial e como caminho para o discipulado. A catequese é um processo permanente de educação da fé. Portanto, o discipulado acontece no mundo e está aberto às necessidades e desafios da realidade. É o que você lerá a seguir, nas palavras de dom Orlando Brandes, arcebispo de Londrina-PR.
Dom Orlando Brandes
1.º O Ano Catequético tem o objetivo de implantar a iniciação cristã como critério fundamental da catequese no Brasil. Iniciação cristã significa:
- encantamento por Jesus Cristo e seu reino, conversão permanente, engajamento comunitário, discipulado com aprofundamento bíblico, vivência litúrgica, celebrativa, orante e grande ousadia missionária.
2.º O Ano Catequético quer ser uma avaliação e um lançamento do ministério catequético. Precisamos de uma catequese bíblica, que envolva a família, que leve a uma participação ativa e afetiva na comunidade e que colabore na transformação do mundo. Tudo começa a “partir de Cristo Jesus”. Quanto mais encantamento, maior engajamento.
3.º O Ano Catequético quer bater na porta do coração dos bispos e dos padres. Eles são a mola propulsora da catequese. Toda a comunidade catequiza com sua liturgia, seus cantos, suas pastorais, movimentos e forças de evangelização. Precisamos de mais homens e casais na catequese. Cada paróquia deve ter a organização paroquial da catequese. Não podemos continuar perdendo nossos catequizandos após a Primeira Eucaristia e a Crisma.
4.º O Ano Catequético espera que os Grupos de Refl exão e pequenas comunidades sejam prolongamento da catequese nas casas e famílias. As pequenas comunidades e Grupos, como também os grupos de adolescentes e jovens, são a continuidade da catequese. Todo catequista deve apoiar os Grupos, porque eles são centros de catequese semanal.
5.º O Ano Catequético pede que cada diocese, região pastoral, paróquia e comunidade realizem gestos bem concretos em prol do revigoramento catequético.
Precisamos vencer alguns problemas como:
- rotatividade, falta de formação, ausência dos padres, desconhecimento bíblico, desleixo da família e alienação da comunidade.
Dom Orlando Brandes em cerimônia litúrgica
6.º O Ano Catequético não pode ficar na teoria, nos desejos e intenções. É preciso realização, opção, decisão e pé no chão. A catequese precisa articular-se com as pastorais e vice-versa. Precisamos melhorar a catequese com adultos, a catequese com pessoas especiais, a catequese urbana, a catequese familiar. Desafios são possibilidades de soluções.
7.º O Ano Catequético lembra, mais uma vez, que a infância, o namoro, o noivado, a gravidez são etapas preciosas para uma catequese desde a raiz, e não de verniz. Comecemos a catequese o quanto mais cedo possível. Antes da televisão, do vídeo game, da internet e do celular. É preciso chegar antes e chegar encantando, cativando, atraindo. Catequese deve começar aos seis anos, não é? Não esqueçamos que a TV é a primeira catequista de nossas crianças para torná-las consumistas.
8.º Catequese atraente, o quanto mais cedo possível, catequese para a vida e como um processo orgânico, duradouro, contínuo, eis que o Ano Catequético quer reafirmar.
Fonte: JC – Jornal da Comunidade,
Publicação da Arquidiocese de Londrina
sábado, 22 de maio de 2010
sábado, 17 de abril de 2010
sábado, 3 de abril de 2010
quarta-feira, 3 de março de 2010
Quaresma 2010, o Papa: "Façamos uma revisão da nossa vida"
O Papa, na sua mensagem quaresmal, sugere uma reflexão sobre a justiça, para qual todos devemos contribuir, difundindo-a ao nosso redor.
23 de fevereiro de 2010
Queridos irmãos e irmãs,
Todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida à luz dos ensinamentos evangélicos. Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21 – 22).
Justiça: “dare cuique suum”
Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra “justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romana do século III.
Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele “suo” que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais íntimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado á sua imagem e semelhança.
São certamente úteis e necessários os bens materiais – no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena centenas de milhões de seres humanos à morte por falta de alimentos, de água e de medicamentos – mas a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo” que lhe é devido.
Como e mais do que o pão ele de fato precisa de Deus. Observa Santo Agostinho: se “a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu…não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21).
De onde vem a injustiça?
O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate daquele tempo sobre o que é puro e impuro: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc 7,14-15.20-21).
Para além da questão imediata relativo ao alimento, podemos entrever nas reações dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior.
Muitas das ideologias modernas, a bem ver, tem este pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua atuação.
Esta maneira de pensar – admoesta Jesus – é ingênua e míope. A injustiça, fruto do mal, não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista: ”Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl. 51,7).
Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original.
Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, tomando o fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram a lógica de confiar no Amor pela da suspeita e da competição; a lógica do receber, da espera confiante do Outro, por aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cfr Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?
Justiça e Sedaqah
No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente (Sl 113,7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem.
De fato sedaqah significa, por um lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; por outro, equidade em relação ao próximo (cfr Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva (cfr Dt 10,18-19).
Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é do que a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho.
Isto é, a escuta da Lei, pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egito (cfr Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre (cfr.Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro (cfr Ex 22,20), o escravo ( cfr Dt 15,12-18).
Para entrar na justiça, portanto, é necessário sair daquela ilusão de auto–suficiência, daquele estado profundo de fechamento, que á a própria origem da injustiça. Em outras palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que aquele que Deus efetuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente para realizar. Sendo assim, será que existe para o homem esperança de justiça?
Cristo, justiça de Deus
O anúncio cristão responde positivamente à sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os fiéis. De fato, não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé” (3,21-25)
Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais nada a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros.
O fato de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “ a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cfr Gal 3,13-14).
Mas isto levanta imediatamente uma objeção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é “seu”?
Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante.
Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidência que o homem não é um ser autárquico, mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.
Compreende-se então como a fé não é um fato natural, cômodo, evidente: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitencia e da Eucaristia. Graças à ação de Cristo, nós podemos entrar na justiça “maior”, que é aquela do amor (cfr Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.
Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.
Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também neste ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autêntica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica.
Vaticano, 30 de Outubro de 2009
O Papa, na sua mensagem quaresmal, sugere uma reflexão sobre a justiça, para qual todos devemos contribuir, difundindo-a ao nosso redor.
23 de fevereiro de 2010
Queridos irmãos e irmãs,
Todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida à luz dos ensinamentos evangélicos. Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21 – 22).
Justiça: “dare cuique suum”
Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra “justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romana do século III.
Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele “suo” que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais íntimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado á sua imagem e semelhança.
São certamente úteis e necessários os bens materiais – no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena centenas de milhões de seres humanos à morte por falta de alimentos, de água e de medicamentos – mas a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo” que lhe é devido.
Como e mais do que o pão ele de fato precisa de Deus. Observa Santo Agostinho: se “a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu…não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21).
De onde vem a injustiça?
O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate daquele tempo sobre o que é puro e impuro: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc 7,14-15.20-21).
Para além da questão imediata relativo ao alimento, podemos entrever nas reações dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior.
Muitas das ideologias modernas, a bem ver, tem este pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua atuação.
Esta maneira de pensar – admoesta Jesus – é ingênua e míope. A injustiça, fruto do mal, não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista: ”Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl. 51,7).
Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original.
Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, tomando o fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram a lógica de confiar no Amor pela da suspeita e da competição; a lógica do receber, da espera confiante do Outro, por aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cfr Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?
Justiça e Sedaqah
No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente (Sl 113,7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem.
De fato sedaqah significa, por um lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; por outro, equidade em relação ao próximo (cfr Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva (cfr Dt 10,18-19).
Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é do que a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho.
Isto é, a escuta da Lei, pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egito (cfr Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre (cfr.Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro (cfr Ex 22,20), o escravo ( cfr Dt 15,12-18).
Para entrar na justiça, portanto, é necessário sair daquela ilusão de auto–suficiência, daquele estado profundo de fechamento, que á a própria origem da injustiça. Em outras palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que aquele que Deus efetuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente para realizar. Sendo assim, será que existe para o homem esperança de justiça?
Cristo, justiça de Deus
O anúncio cristão responde positivamente à sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os fiéis. De fato, não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé” (3,21-25)
Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais nada a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros.
O fato de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “ a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cfr Gal 3,13-14).
Mas isto levanta imediatamente uma objeção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é “seu”?
Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante.
Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidência que o homem não é um ser autárquico, mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.
Compreende-se então como a fé não é um fato natural, cômodo, evidente: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitencia e da Eucaristia. Graças à ação de Cristo, nós podemos entrar na justiça “maior”, que é aquela do amor (cfr Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.
Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.
Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também neste ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autêntica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica.
Vaticano, 30 de Outubro de 2009
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Cartas papal
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CARTA APOSTÓLICA DE
JOÃO PAULO II
SOB FORMA DE «MOTU PROPRIO»
MISERICORDIA DEI
SOBRE ALGUNS ASPECTOS
DA CELEBRAÇÃO
DO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA
Pela misericórdia de Deus, Pai que reconcilia, o Verbo encarnou no seio puríssimo da Bem-aventurada Virgem Maria para salvar «o povo dos seus pecados» (Mt 1,21) e abrir-lhe «o caminho da salvação».(1) São João Baptista confirma esta missão, indicando Jesus como o «Cordeiro de Deus», «Aquele que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29). Toda a obra e a pregação do Precursor é uma chamada enérgica e premente à penitência e à conversão, cujo sinal é o baptismo administrado nas águas do Jordão. Também Jesus se submeteu àquele rito penitencial (cf. Mt 3,13-17), não porque tenha pecado, mas porque «Se deixa contar entre o número dos pecadores; é já o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29), e antecipa já o “baptismo” da sua morte sangrenta».(2) Assim, a salvação é, antes de mais nada, redenção do pecado, enquanto impedimento da amizade com Deus, e libertaçãodo estado de escravidão, no qual se encontra o homem que cedeu à tentação do Maligno e perdeu a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rom 8,21).
A missão confiada por Cristo aos Apóstolos é o anúncio do Reino de Deus e a pregação do Evangelho tendo em vista a conversão (cf. Mc 16,15; Mt 28,18-20). Na tarde do mesmo dia da Ressurreição, quando está iminente o início da missão apostólica, Jesus confere aos Apóstolos, pela força do Espírito Santo, o poder de reconciliar com Deus e com a Igreja os pecadores arrependidos: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos» (Jo 20,22-23).(3)
Na incessante praxe da Igreja ao longo da história, o «ministério da reconciliação» (2Cor 5,18), actuada mediante os sacramentos do Baptismo e da Penitência, revelou-se sempre um empenho pastoral vivamente prezado, realizado segundo o mandato de Jesus como parte essencial do ministério sacerdotal. A celebração do sacramento da Penitência conheceu, ao longo dos séculos, uma evolução com diversas formas expressivas, mas sempre conservando a mesma estrutura fundamental que compreende necessariamente, além da participação do ministro — só um Bispo ou um presbítero, que julga e absolve, cura e sara em nome de Cristo —, os actos do penitente: a contrição, a confissão e a satisfação.
Na Carta Apostólica Novo millennio ineunte, escrevi: «Solicito ainda uma renovada coragem pastoral para, na pedagogia quotidiana das comunidades cristãs, se propor de forma persuasiva e eficaz a prática do Sacramento da Reconciliação. Em 1984, como recordareis, intervim sobre este tema através da Exortação pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia, na qual foram recolhidos os frutos da reflexão da Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos dedicada a esta problemática. Lá, convidava a que se fizesse todo o esforço para superar a crise do «sentido do pecado». [...] Quando o referido Sínodo se debruçou sobre o tema, estava à vista de todos a crise deste Sacramento, sobretudo nalgumas regiões do mundo. E os motivos que a originaram, não desapareceram neste breve espaço de tempo. Mas o Ano Jubilar, que foi caracterizado particularmente pelo recurso à Penitência sacramental, ofereceu-nos uma estimulante mensagem que não deve ser perdida: se tantos fiéis — jovens muitos deles — se aproximaram frutuosamente deste Sacramento, provavelmente é necessário que os Pastores se armem de maior confiança, criatividade e perseverança para o apresentarem e fazerem-no valorizar».(4)
Com estas palavras, quis e quero encorajar e, ao mesmo tempo, dirigir um forte convite aos meus irmãos Bispos — e, através deles, a todos os presbíteros — para um solícito relançamento do sacramento da Reconciliação, inclusive como exigência de autêntica caridade e de verdadeira justiça pastoral,(5) lembrando-lhes que cada fiel, com as devidas disposições interiores, tem o direito de receber pessoalmente o dom sacramental.
A fim de que o ministro do sacramento possa realizar o discernimento sobre as disposições dos penitentes para receber ou não a absolvição e para a devida penitência que há-de impor, é necessário que o fiel, além da noção das faltas cometidas, da dor dos pecados e do propósito de não tornar a cair,(6) confesse os seus pecados. Neste sentido, o Concílio de Trento declarou que é necessário, «por direito divino, confessar todos e cada um dos pecados mortais».(7) A Igreja viu sempre um nexo essencial entre o juízo confiado aos sacerdotes neste sacramento e a necessidade que os penitentes declarem os próprios pecados,(8) salvo nos casos de impossibilidade. Portanto, sendo a confissão completa dos pecados graves, por instituição divina, parte constitutiva do sacramento, ela não está de modo algum confiada à livre disposição dos Pastores (dispensa, interpretação, costumes locais, etc.). A competente Autoridade eclesiástica especifica unicamente — nas relativas normas disciplinares — os critérios para distinguir a impossibilidade real de confessar os pecados de outras situações cuja impossibilidade é só aparente ou de qualquer modo superável.
Nas actuais circunstâncias pastorais, para atender aos pedidos apreensivos de numerosos Irmãos no Episcopado, considero conveniente recordar algumas leis canónicas em vigor sobre a celebração deste sacramento, especificando certos aspectos para, em espírito de comunhão com a responsabilidade que é própria de todo o Episcopado,(9) favorecer uma melhor administração daquele. Trata-se de tornar efectiva e de tutelar uma celebração cada vez mais fiel, e portanto sempre mais proveitosa, do dom confiado à Igreja pelo Senhor Jesus depois da ressurreição (cf. Jo 20, 19-23). Isto revela-se especialmente necessário quando se observa em certas regiões a tendência ao abandono da confissão pessoal, juntamente a um recurso abusivo à «absolvição geral» ou «colectiva», de modo que esta deixa de ser vista como meio extraordinário em situações totalmente excepcionais. Partindo de um alargamento arbitrário do requisito da grave necessidade,(10) perde-se de vista praticamente a fidelidade à configuração divina do sacramento, e concretamente a necessidade da confissão individual, com graves danos para a vida espiritual dos fiéis e para a santidade da Igreja.
Portanto, depois de ouvir a este respeito a Congregação para a Doutrina da Fé, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, bem como os pareceres dos venerados Irmãos Cardeais que estão à frente dos Dicastérios da Cúria Romana, reiterando a doutrina católica relativa ao sacramento da Penitência e da Reconciliação exposta sinteticamente no Catecismo da Igreja Católica,(11) ciente da minha responsabilidade pastoral e com plena consciência da necessidade e eficácia sempre actual deste sacramento, disponho o seguinte:
1. Os Ordinários lembrem a todos os ministros do sacramento da Penitência que a lei universal da Igreja reafirmou, aplicando a doutrina católica nesta matéria, que:
a) «A confissão individual e íntegra e a absolvição constituem o único modo ordinário pelo qual o fiel, consciente de pecado grave, se reconcilia com Deus e com a Igreja; somente a impossibilidade física ou moral o escusa desta forma de confissão, podendo neste caso obter-se a reconciliação também por outros meios».(12)
b) Por isso, «todo aquele que, em razão do ofício, tem cura de almas, está obrigado a providenciar para que sejam ouvidas as confissões dos fiéis que lhe estão confiados e que de modo razoável peçam para se confessar, a fim de que aos mesmos se ofereça a oportunidade de se confessarem individualmente em dias e horas que lhes sejam convenientes».(13)
Além disso, todos os sacerdotes com faculdade de administrar o sacramento da Penitência, mostrem-se sempre e plenamente dispostos a administrá-lo todas as vezes que os fiéis o peçam razoavelmente.(14) A falta de disponibilidade para acolher as ovelhas feridas, mais, para ir ao seu encontro e reconduzi-las ao aprisco, seria um doloroso sinal de carência de sentido pastoral em quem, pela Ordenação sacerdotal, deve reproduzir em si mesmo a imagem do Bom Pastor.
2. Os Ordinários do lugar, bem como os párocos e os reitores de igrejas e santuários, devem verificar periodicamente se existem efectivamente as maiores facilidades possíveis para as confissões dos fiéis. De modo particular, recomenda-se a presença visível dos confessores nos lugares de culto durante os horários previstos, a acomodação destes horários à situação real dos penitentes, e uma especial disponibilidade para confessar antes das Missas e mesmo para ir de encontro à necessidade dos fiéis durante a celebração da Eucaristia, se houver outros sacerdotes disponíveis.(15)
3.Visto que «o fiel tem obrigação de confessar, na sua espécie e número, todos os pecados graves de que se lembrar após diligente exame de consciência, cometidos depois do baptismo e ainda não directamente perdoados pelo poder das chaves da Igreja nem acusados em confissão individual»,(16) seja reprovado qualquer costume que limite a confissão a uma acusação genérica ou somente de um ou mais pecados considerados significativos. Por outro lado, levando-se em conta a chamada de todos os fiéis à santidade, recomenda-se-lhes que confessem também os pecados veniais.(17)
4. À luz e no âmbito das normas precedentes, deve ser entendida e rectamente aplicada a absolvição simultânea de vários penitentes sem prévia confissão individual, prevista no cân. 961 do Código de Direito Canónico. Aquela, com efeito, «reveste-se de carácter excepcional»(18) e «não pode dar-se de modo geral, a não ser que:
1º) seja iminente o perigo de morte, e não haja tempo para um ou mais sacerdotes poderem ouvir a confissão de cada um dos penitentes;
2º) haja grave necessidade, isto é, quando, dado o número de penitentes, não houver sacerdotes suficientes para, dentro de tempo razoável, ouvirem devidamente as confissões de cada um, de tal modo que os penitentes, sem culpa própria, fossem obrigados a permanecer durante muito tempo privados da graça sacramental e da sagrada comunhão; não se considera existir necessidade suficiente quando não possam estar presentes confessores bastantes somente por motivo de grande afluência de penitentes, como pode suceder nalguma grande festividade ou peregrinação».(19)
A respeito do caso de grave necessidade, especifica-se o seguinte:
a) Trata-se de situações objectivamente excepcionais, como as que se podem verificar nos territórios de missão ou em comunidades de fiéis isolados, onde o sacerdote só pode passar uma ou poucas vezes ao ano, ou quando as condições de guerra, meteorológicas ou outras circunstâncias semelhantes o consintam.
b) As duas condições estabelecidas no cânone para configurar uma grave necessidade são inseparáveis, de modo que nunca é suficiente a mera impossibilidade de confessar «devidamente» cada um dos indivíduos «dentro de tempo razoável» devido à escassez de sacerdotes; mas a tal impossibilidade deve associar-se o facto de que, caso contrário, os penitentes ver-se-iam obrigados a permanecer «durante muito tempo», sem culpa própria, privados da graça sacramental. Deve-se, por isso, ter presente o conjunto das circunstâncias dos penitentes e da diocese, quando se atende à sua organização pastoral e à possibilidade de acesso dos fiéis ao sacramento da Penitência.
c) A primeira condição — a impossibilidade de ouvir «devidamente» as confissões «dentro de um tempo razoável» — refere-se só ao tempo normalmente requerido para a essencial administração válida e digna do sacramento, não sendo relevante a este respeito um colóquio pastoral mais amplo, que pode ser adiado para circuns- tâncias mais favoráveis. Este tempo razoavelmente oportuno para nele se ouvir as confissões, dependerá das possibilidades reais do confessor ou confessores e dos mesmos penitentes.
d) Quanto à segunda condição, caberá avaliar com um juízo prudencial qual seja a extensão do tempo de privação da graça sacramental a fim de que haja verdadeira impossibilidade conforme o cân. 960, sempre que não se esteja perante iminente perigo de morte. Tal juízo não é prudencial, se se desvirtua o sentido da impossibilidade física ou moral como no caso, por exemplo, de considerar que um período inferior a um mês implicaria permanecer «durante muito tempo» em tal privação.
e) Não é admissível criar ou permitir que se criem situações de aparente grave necessidade, derivadas da omissão da administração ordinária do sacramento pelo não cumprimento das normas acima indicadas(20) e, muito menos, da opção dos penitentes pela absolvição geral, como se se tratasse de uma possibilidade normal e equivalente às duas formas ordinárias descritas no Ritual.
f) Não constitui suficiente necessidade, a mera grande afluência de penitentes, não só em ocasiões de uma festa solene ou de uma peregrinação, mas nem mesmo por turismo ou outras razões semelhantes devidas à crescente mobilidade das pessoas.
5. Não cabe ao confessor julgar se se verificam as condições requeridas pelo cân. 961-§1, 2º, mas «ao Bispo diocesano, o qual, atendendo aos critérios fixados por acordo com os restantes membros da Conferência Episcopal, pode determinar os casos em que se verifique tal necessidade».(21) Estes critérios pastorais deverão ser expressão do esforço de total fidelidade, nas circunstâncias dos respectivos territórios, aos critérios de fundo definidos pela disciplina universal da Igreja, que se apoiam aliás nas exigências derivadas do mesmo sacramento da Penitência na sua divina instituição.
6. Numa matéria tão essencial para a vida da Igreja, sendo de fundamental importância a plena harmonia entre os vários Episcopados do mundo, as Conferências Episcopais, segundo o cân. 455-§ 2 do CDC, farão chegar quanto antes à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos o texto das normas que pensam estabelecer ou actualizar, à luz deste Motu proprio, em aplicação do cân 961 do CDC. Tal medida favorecerá, sem dúvida, uma sempre maior comunhão entre os Bispos de toda a Igreja, estimulando os fiéis de todas as partes a recorrer abundantemente às fontes da misericórdia divina, que sempre jorram do sacramento da Reconciliação.
Nesta perspectiva de comunhão, será também oportuno que os Bispos diocesanos informem as respectivas Conferências Episcopais se se verificam ou não, no próprio âmbito de jurisdição, casos de grave necessidade. Caberá, em seguida, às Conferências Episcopais informar a sobredita Congregação sobre a situação realmente existente no seu território, e as eventuais mudanças que se registassem posteriormente.
7. Quanto às disposições pessoais do penitente, reitera-se que:
a) «Para o fiel poder usufruir validamente da absolvição concedida simultaneamente a várias pessoas, requer-se não só que esteja devidamente disposto, mas que simultaneamente proponha confessar-se individualmente, no devido tempo, dos pecados graves que no momento não pôde confessar».(22)
b) Na medida do possível, inclusive no caso de iminente perigo de morte, «instruam-se [os fiéis] a que procure cada um fazer o acto de contrição».(23)
c) É claro que não podem receber validamente a absolvição os penitentes que vivam em estado habitual de pecado grave e não queiram mudar a própria situação.
8. Mantendo-se a obrigação «de confessar fielmente os pecados graves, ao menos uma vez ao ano»,(24) «aquele a quem forem perdoados pecados graves em absolvição geral, aproxime-se quanto antes, oferecendo-se a ocasião, da confissão individual, antes de receber nova absolvição geral, a não ser que surja causa justa».(25)
9. Acerca do lugar e da sede para a celebração do sacramento tenha-se em conta que:
a) «O lugar próprio para ouvir as confissões sacramentais é a igreja ou o oratório»,(26) deixando porém claro que razões de ordem pastoral podem justificar as celebrações do sacramento em outros lugares;(27)
b) a sede para as confissões é disciplinada com normas estabelecidas pelas respectivas Conferências Episcopais, as quais deverão garantir que aquela esteja colocada «em lugar patente» e seja também «munida de grade fixa», permitindo assim aos fiéis, e aos mesmos confessores, que o desejem, seu livre uso.(28)
Tudo o que estabeleci, com a presente Carta apostólica em forma de Motu proprio, ordeno que tenha valor pleno e estável e seja observado a partir deste dia, não obstante qualquer outra disposição em contrário.Aquela, por sua natureza, tem valor inclusive para as venerandas Igrejas Católicas Orientais, de acordo com os respectivos cânones que lhes são próprios.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 7 de Abril, Domingo da Oitava de Páscoa ou da Divina Misericórdia, no ano do Senhor de 2002, vigésimo quarto de Pontificado.
Notas
(1) Missal Romano, Prefácio do Advento I.
(2) Catecismo da Igreja Católica, 536.
(3) Cf. Conc. Ecum. de Trento, ses.XIV, De sacramento paenitentiae, cân. 3: DS 1703.
(4) N. 37: AAS 93 (2001) 292.
(5) Cf. CDC, cân. 213 e 843, §1.
(6) Cf. Conc. Ecum. de Trento, ses.XIV, De sacramento paenitentiae, cap. 4: DS 1676.
(7) Ibid., cân. 7: DS 1707.
(8) Cf. ibid., cap. 5: DS 1679; Conc.Ecum. de Florença, Decr. pro Armeniis (22 de Novembro de 1439): DS 1323.
(9) Cf. cân. 392; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 23.27; Decr. sobre o ministério pastoral dos bispos Christus Dominus, 16.
(10) Cf. cân. 961, § 1, 2º.
(11) Cf. nn. 980-987; 1114-1134; 1420-1498.
(12) Cân. 960.
(13) Cân. 986, § 1.
(14) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o ministério e vida dos presbíteros Presbyterorum ordinis, 13; Ordo Paenitentiae, editio typica, 1974, Praenotanda, n. 10,b.
(15) Cf. Congr. para o Culto divino e a Disciplina dos sacramentos, Responsa ad dubia proposita: «Notitiae», 37 (2001), 259-260.
(16) Cân. 988, § 1.
(17) Cf. cân. 988, § 2; João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia (2 de Dezembro de 1984), 32: AAS 77 (1985) 267; Catecismo da Igreja Católica, 1458.
(18) João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia (2 de Dezembro de 1984), 32: AAS 77 (1985), 267.
(19) Cân. 961, § 1.
(20) Cf. supra nn. 1 e 2.
(21) Cân. 961, § 2.
(22) Cân. 962, § 1.
(23) Cân. 962, § 2.
(24) Cân. 989.
(25) Cân. 963.
(26) Cân. 964, § 1.
(27) Cf. cân. 964, § 3.
(28) Cf. cân. 964, § 2; Pont. Cons. para a Interpretação dos Textos legislativos, Responsa ad propositum dubium: de loco excipiendi sacramentales confessiones (7 de Julho de 1998): AAS
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LETTERA APOSTOLICA
IN FORMA DI «MOTU PROPRIO»
MISERICORDIA DEI
SU ALCUNI ASPETTI DELLA CELEBRAZIONE
DEL SACRAMENTO DELLA PENITENZA
Per la misericordia di Dio, Padre che riconcilia, il Verbo prese carne nel grembo purissimo della Beata Vergine Maria per salvare «il suo popolo dai suoi peccati» (Mt 1, 21) e aprirgli «la via della eterna salvezza».(1) San Giovanni Battista conferma questa missione indicando in Gesù l'«Agnello di Dio», «colui che toglie il peccato del mondo» (Gv 1, 29). Tutta l'opera e la predicazione del Precursore è una chiamata energica e calorosa alla penitenza e alla conversione, il cui segno è il battesimo amministrato nelle acque del Giordano. Lo stesso Gesù si è sottomesso a quel rito penitenziale (cfr Mt 3, 13- 17), non perché abbia peccato, ma perché «Egli si lascia annoverare tra i peccatori; è già “l'Agnello di Dio che toglie il peccato del mondo” (Gv 1, 29); già anticipa il “battesimo” della sua morte cruenta».(2) La salvezza è, dunque e innanzitutto, redenzione dal peccato quale impedimento all'amicizia con Dio, e liberazione dallo stato di schiavitù nel quale si trova l'uomo, che ha ceduto alla tentazione del Maligno e ha perso la libertà dei figli di Dio (cfr Rm 8, 21).
La missione affidata da Cristo agli Apostoli è l'annuncio del Regno di Dio e la predicazione del Vangelo in vista della conversione (cfr Mc 16, 15; Mt 28, 18-20). La sera dello stesso giorno della sua Risurrezione, quando è imminente l'inizio della missione apostolica, Gesù dona agli Apostoli, in virtù della forza dello Spirito Santo, il potere di riconciliare con Dio e con la Chiesa i peccatori pentiti: «Ricevete lo Spirito Santo; a chi rimetterete i peccati saranno rimessi e a chi non li rimetterete, resteranno non rimessi» (Gv 20, 22-23).(3)
Lungo la storia e nell'ininterrotta prassi della Chiesa «il ministero della riconciliazione» (2 Cor 5, 18), donata mediante i sacramenti del Battesimo e della Penitenza, si è dimostrato un impegno pastorale sempre vivamente sentito, compiuto in ossequio al mandato di Gesù come parte essenziale del ministero sacerdotale. La celebrazione del sacramento della Penitenza ha avuto nel corso dei secoli uno sviluppo che ha conosciuto diverse forme espressive, sempre, però, conservando la medesima struttura fondamentale che comprende necessariamente, oltre all'intervento del ministro — soltanto un Vescovo o un presbitero, che giudica e assolve, cura e guarisce nel nome di Cristo — gli atti del penitente: la contrizione, la confessione e la soddisfazione.
Nella Lettera apostolica Novo millennio ineunte ho scritto: «Un rinnovato coraggio pastorale vengo poi a chiedere perché la quotidiana pedagogia delle comunità cristiane sappia proporre in modo suadente ed efficace la pratica del sacramento della Riconciliazione. Come ricorderete, nel 1984 intervenni su questo tema con l'Esortazione postsinodale Reconciliatio et paenitentia, che raccoglieva i frutti di riflessione di un'Assemblea generale del Sinodo dei Vescovi dedicata a questa problematica. Invitavo allora a fare ogni sforzo per fronteggiare la crisi del “senso del peccato” (...) Quando il menzionato Sinodo affrontò il problema, stava sotto gli occhi di tutti la crisi del Sacramento, specialmente in alcune regioni del mondo. I motivi che ne erano all'origine non sono svaniti in questo breve arco di tempo. Ma l'Anno giubilare, che è stato particolarmente caratterizzato dal ricorso alla Penitenza sacramentale, ci ha offerto un messaggio incoraggiante, da non lasciar cadere: se molti, e tra essi anche tanti giovani, si sono accostati con frutto a questo Sacramento, probabilmente è necessario che i Pastori si armino di maggior fiducia, creatività e perseveranza nel presentarlo e farlo valorizzare».(4)
Con queste parole ho inteso e intendo far coraggio e, nello stesso tempo, rivolgere un forte invito ai miei confratelli Vescovi — e, attraverso di essi, a tutti i presbiteri — per un sollecito rilancio del sacramento della Riconciliazione, anche come esigenza di autentica carità e di vera giustizia pastorale,(5) ricordando loro che ogni fedele, con le dovute disposizioni interiori, ha diritto a ricevere personalmente il dono sacramentale.
Affinché il discernimento sulle disposizioni dei penitenti in ordine alla remissione o meno, e all'imposizione dell'opportuna penitenza da parte del ministro del Sacramento possa essere attuato, occorre che il fedele, oltre alla coscienza dei peccati commessi, al dolore per essi e alla volontà di non più ricaderci,(6) confessi i suoi peccati. In questo senso, il Concilio di Trento dichiarò che è necessario «per diritto divino confessare tutti e singoli i peccati mortali».(7) La Chiesa ha visto sempre un nesso essenziale tra il giudizio affidato ai sacerdoti in questo Sacramento e la necessità che i penitenti dichiarino i propri peccati,(8) tranne in caso di impossibilità. Pertanto, essendo la confessione completa dei peccati gravi per istituzione divina parte costitutiva del Sacramento, essa non resta in alcun modo affidata alla libera disponibilità dei Pastori (dispensa, interpretazione, consuetudini locali, ecc.). La competente Autorità ecclesiastica specifica unicamente — nelle relative norme disciplinari — i criteri per distinguere l'impossibilità reale di confessare i peccati da altre situazioni in cui l'impossibilità è solo apparente o comunque superabile.
Nelle attuali circostanze pastorali, venendo incontro alle preoccupate richieste di numerosi Fratelli nell'Episcopato, considero conveniente richiamare alcune delle leggi canoniche vigenti circa la celebrazione di questo Sacramento, precisandone qualche aspetto per favorire in spirito di comunione con la responsabilità che è propria dell'intero Episcopato(9) una sua migliore amministrazione. Si tratta di rendere effettiva e di tutelare una celebrazione sempre più fedele, e pertanto sempre più fruttifera, del dono affidato alla Chiesa dal Signore Gesù dopo la risurrezione (cfr Gv 20, 19-23). Ciò appare specialmente necessario dal momento che si osserva in alcune regioni la tendenza all'abbandono della confessione personale insieme ad un ricorso abusivo all'«assoluzione generale» o «collettiva», sicché essa non appare come mezzo straordinario in situazioni del tutto eccezionali. Sulla base di un allargamento arbitrario del requisito della grave necessità,(10) si perde di vista in pratica la fedeltà alla configurazione divina del Sacramento, e concretamente la necessità della confessione individuale, con gravi danni per la vita spirituale dei fedeli e per la santità della Chiesa.
Pertanto, dopo aver sentito in merito la Congregazione per la Dottrina della Fede, la Congregazione per il Culto Divino e la Disciplina dei Sacramenti e il Pontificio Consiglio per i Testi Legislativi, nonché i pareri di venerati Fratelli Cardinali preposti ai Dicasteri della Curia Romana, ribadendo la dottrina cattolica riguardo al sacramento della Penitenza e della Riconciliazione, esposta sinteticamente nel Catechismo della Chiesa Cattolica,(11) cosciente della mia responsabilità pastorale e con piena consapevolezza della necessità ed efficacia sempre attuali di questo Sacramento, dispongo quanto segue:
1. Gli Ordinari ricordino a tutti i ministri del sacramento della Penitenza che la legge universale della Chiesa ha ribadito, in applicazione della dottrina cattolica in materia, che:
a) «La confessione individuale e integra e l'assoluzione costituiscono l'unico modo ordinario con cui il fedele, consapevole di peccato grave, è riconciliato con Dio e con la Chiesa; solamente una impossibilità fisica o morale scusa da una tale confessione, nel qual caso la riconciliazione si può ottenere anche in altri modi».(12)
b) Perciò, «tutti coloro cui è demandata in forza dell'ufficio la cura delle anime, sono tenuti all'obbligo di provvedere che siano ascoltate le confessioni dei fedeli a loro affidati, che ragionevolmente lo chiedano, e che sia ad essi data l'opportunità di accostarsi alla confessione individuale, stabiliti, per loro comodità, giorni e ore».(13)
Inoltre, tutti i sacerdoti che hanno la facoltà di amministrare il sacramento della Penitenza, si mostrino sempre e pienamente disposti ad amministrarlo ogniqualvolta i fedeli ne facciano ragionevolmente richiesta.(14) La mancanza di disponibilità ad accogliere le pecore ferite, anzi, ad andare loro incontro per ricondurle all'ovile, sarebbe un doloroso segno di carenza di senso pastorale in chi, per l'Ordinazione sacerdotale, deve portare in sé l'immagine del Buon Pastore.
2. Gli Ordinari del luogo, nonché i parroci e i rettori di chiese e santuari, devono verificare periodicamente che di fatto esistano le massime facilitazioni possibili per le confessioni dei fedeli. In particolare, si raccomanda la presenza visibile dei confessori nei luoghi di culto durante gli orari previsti, l'adeguamento di questi orari alla situazione reale dei penitenti, e la speciale disponibilità per confessare prima delle Messe e anche per venire incontro alla necessità dei fedeli durante la celebrazione delle SS. Messe, se sono disponibili altri sacerdoti.(15)
3. Poiché «il fedele è tenuto all'obbligo di confessare secondo la specie e il numero tutti i peccati gravi commessi dopo il Battesimo e non ancora direttamente rimessi mediante il potere delle chiavi della Chiesa, né accusati nella confessione individuale, dei quali abbia coscienza dopo un diligente esame»,(16) va riprovato qualsiasi uso che limiti la confessione ad un'accusa generica o soltanto di uno o più peccati ritenuti più significativi. D'altra parte, e tenendo conto della chiamata di tutti i fedeli alla santità, si raccomanda loro di confessare anche i peccati veniali.(17)
4. Alla luce e nel contesto delle norme precedenti, deve essere compresa e rettamente applicata l'assoluzione a più penitenti insieme senza la previa confessione individuale, prevista al can. 961 del Codice di Diritto Canonico. Essa, infatti, «riveste un carattere di eccezionalità»(18) e «non può essere impartita in modo generale se non:
1º vi sia imminente pericolo di morte ed al sacerdote o ai sacerdoti non basti il tempo per ascoltare le confessioni dei singoli penitenti;
2º vi sia grave necessità, ossia quando, dato il numero dei penitenti, non si hanno a disposizione confessori sufficienti per ascoltare, come si conviene, le confessioni dei singoli entro un tempo conveniente, sicché i penitenti, senza loro colpa, sarebbero costretti a rimanere a lungo privi della grazia sacramentale o della sacra comunione; però la necessità non si considera sufficiente quando non possono essere a disposizione dei confessori, per la sola ragione di una grande affluenza di penitenti, quale può aversi in occasione di una grande festa o di un pellegrinaggio».(19)
Circa il caso di grave necessità, si precisa quanto segue:
a) Si tratta di situazioni che, oggettivamente, sono eccezionali, come quelle che si possono verificare in territori di missione o in comunità di fedeli isolati, dove il sacerdote può passare soltanto una o poche volte l'anno o quando le condizioni belliche, meteorologiche o altre simili circostanze lo consentano.
b) Le due condizioni stabilite nel canone per configurare la grave necessità sono inseparabili, per cui non è mai sufficiente la sola impossibilità di confessare «come si conviene» i singoli entro «un tempo conveniente» a causa della scarsità di sacerdoti; tale impossibilità deve essere unita al fatto che altrimenti i penitenti sarebbero costretti a rimanere «a lungo», senza loro colpa, privi della grazia sacramentale. Si debbono perciò tener presenti le circostanze complessive dei penitenti e della diocesi, per quanto attiene l'organizzazione pastorale di questa e la possibilità di accesso dei fedeli al sacramento della Penitenza.
c) La prima condizione, l'impossibilità di poter ascoltare le confessioni «come si conviene» «entro un tempo conveniente», fa riferimento solo al tempo ragionevolmente richiesto per l'essenziale amministrazione valida e degna del Sacramento, non essendo rilevante a tale riguardo un colloquio pastorale più lungo, che può essere rimandato a circostanze più favorevoli. Questo tempo ragionevolmente conveniente, entro cui ascoltare le confessioni, dipenderà dalle possibilità reali del confessore o confessori e degli stessi penitenti.
d) Circa la seconda condizione, sarà un giudizio prudenziale a valutare quanto lungo debba essere il tempo di privazione della grazia sacramentale affinché si abbia vera impossibilità a norma del can. 960, allorché non vi sia imminente pericolo di morte. Tale giudizio non è prudenziale se stravolge il senso dell'impossibilità fisica o morale, come accadrebbe se, ad esempio, si considerasse che un tempo inferiore a un mese implicherebbe rimanere «a lungo» in simile privazione.
e) Non è ammissibile il creare o il permettere che si creino situazioni di apparente grave necessità, derivanti dalla mancata amministrazione ordinaria del Sacramento per inosservanza delle norme sopra ricordate(20) e tanto meno, dall'opzione dei penitenti in favore dell'assoluzione in modo generale, come se si trattasse di una possibilità normale ed equivalente alle due forme ordinarie descritte nel Rituale.
f) La sola grande affluenza di penitenti non costituisce sufficiente necessità, non soltanto in occasione di una festa solenne o di un pellegrinaggio, ma neppure per turismo o altre simili ragioni dovute alla crescente mobilità delle persone.
5. Giudicare se ricorrano le condizioni richieste a norma del can. 961, § 1, 2º, non spetta al confessore, ma «al Vescovo diocesano, il quale, tenuto conto dei criteri concordati con gli altri membri della Conferenza Episcopale, può determinare i casi di tale necessità».(21) Tali criteri pastorali dovranno essere espressione della ricerca della totale fedeltà, nelle circostanze dei rispettivi territori, ai criteri di fondo espressi dalla disciplina universale della Chiesa, i quali peraltro poggiano sulle esigenze derivanti dallo stesso sacramento della Penitenza nella sua divina istituzione.
6. Essendo di fondamentale importanza, in una materia tanto essenziale per la vita della Chiesa, la piena armonia tra i vari Episcopati del mondo, le Conferenze Episcopali, a norma del can. 455 § 2 del C.I.C., faranno pervenire quanto prima alla Congregazione per il Culto Divino e la Disciplina dei Sacramenti il testo delle norme che esse intendono emanare oppure aggiornare, alla luce del presente Motu proprio sull'applicazione del can. 961 del C.I.C. Ciò non mancherà di favorire una sempre più grande comunione tra i Vescovi di tutta la Chiesa, spingendo ovunque i fedeli ad attingere abbondantemente alle fonti della misericordia divina, sempre zampillanti nel sacramento della Riconciliazione.
In questa prospettiva di comunione sarà pure opportuno che i Vescovi diocesani riferiscano alle rispettive Conferenze Episcopali circa il verificarsi o meno, nell'ambito della loro giurisdizione, di casi di grave necessità. Sarà poi compito delle Conferenze Episcopali informare la predetta Congregazione circa la situazione di fatto esistente nel loro territorio e sugli eventuali mutamenti che dovessero in seguito registrarsi.
7. Quanto alle disposizioni personali dei penitenti viene ribadito che:
a) «Affinché un fedele usufruisca validamente dell'assoluzione sacramentale impartita simultaneamente a più persone, si richiede che non solo sia ben disposto, ma insieme faccia il proposito di confessare a tempo debito i singoli peccati gravi, che al momento non può confessare».(22)
b) Per quanto è possibile, anche nel caso di imminente pericolo di morte, venga premessa ai fedeli «l'esortazione che ciascuno provveda a porre l'atto di contrizione».(23)
c) È chiaro che non possono ricevere validamente l'assoluzione i penitenti che vivono in stato abituale di peccato grave e non intendono cambiare la loro situazione.
8. Fermo restando l'obbligo «di confessare i propri peccati gravi almeno una volta all'anno»,(24) «colui al quale sono rimessi i peccati gravi mediante l'assoluzione generale, si accosti quanto prima, offrendosene l'occasione, alla confessione individuale, prima che abbia a ricevere un'altra assoluzione generale, a meno che non sopraggiunga una giusta causa».(25)
9. Circa il luogo e la sede per la celebrazione del Sacramento, si tenga presente che:
a) «il luogo proprio per ricevere le confessioni sacramentali è la chiesa o l'oratorio»,(26) pur restando chiaro che ragioni di ordine pastorale possono giustificare la celebrazione del Sacramento in luoghi diversi;(27)
b) la sede per le confessioni è disciplinata dalle norme emanate dalle rispettive Conferenze Episcopali, le quali garantiranno che essa sia collocata «in luogo visibile» e sia anche «provvista di grata fissa», così da consentire ai fedeli ed agli stessi confessori che lo desiderano di potersene liberamente servire.(28)
Tutto ciò che con la presente Lettera apostolica in forma di Motu proprio ho stabilito, ordino che abbia pieno e durevole valore e sia osservato a partire da questo giorno, nonostante qualsiasi altra disposizione in contrario. Quanto ho stabilito con questa Lettera ha valore, per sua natura, anche per le venerande Chiese Orientali Cattoliche, in conformità ai rispettivi canoni del Codice loro proprio.
Dato a Roma, presso San Pietro, il 7 del mese di aprile, Domenica nell'Ottava di Pasqua o della Divina Misericordia, nell'anno del Signore 2002, ventiquattresimo di Pontificato.
GIOVANNI PAOLO II
(1)Messale Romano, Prefazio dell'Avvento I.
(2)Catechismo della Chiesa Cattolica, 536.
(3)Cfr Conc. Ecum.Tridentino, sess. XIV, De sacramento paenitentiae, can 3: DS 1703.
(4)N. 37: AAS 93 (2001) 292.
(5)Cfr C.I.C., cann. 213 e 843, § 1.
(6)Cfr Conc. Ecum. Tridentino, sess. XIV, Doctrina de sacramento paenitentiae, cap. 4: DS 1676.
(7)Ibid., can. 7: DS 1707.
(8)Cfr ibid., cap. 5: DS 1679; Conc.Ecum. Fiorentino, Decr. pro Armeniis: DS 1323.
(9)Cfr can. 392; Conc.Ecum. Vat. II, Cost. dogm. sulla Chiesa Lumen gentium, 23.27; Decr. sull'ufficio pastorale dei Vescovi Christus Dominus, 16.
(10)Cfr can. 961, § 1, 2º.
(11)Cfr nn. 980-987; 1114-1134; 1420-1498.
(12)Can. 960.
(13)Can. 986, § 1.
(14)Cfr Conc.Ecum. Vat. II, Decr. sul ministero e la vita dei presbiteri Presbyterorum ordinis, 13; Ordo Paenitentiae, Praenotanda, n. 10, b, editio typica, 1974.
(15)Cfr Congr. per il Culto Divino e la Disciplina dei Sacramenti, Responsa ad dubia proposita: «Notitiae», 37 (2001), 259-260.
(16)Can. 988, § 1.
(17)Cfr can. 988, § 2; Giovanni Paolo II, Esort. ap. post-sinodale Reconciliatio et paenitentia (2 dicembre 1984), 32: AAS 77 (1985) 267; Catechismo della Chiesa Cattolica, 1458.
(18)Giovanni Paolo II, Esort. ap. post-sinodale Reconciliatio et paenitentia (2 dicembre 1984), 32: AAS 77 (1985) 267.
(19)Can. 961, § 1.
(20)Cfr sopra nn. 1 e 2.
(21)Can. 961, § 2.
(22)Can. 962, § 1.
(23)Can. 962, § 2.
(24)Can. 989.
(25)Can. 963.
(26)Can. 964, § 1.
(27)Cfr Can. 964, § 3.
(28)Cfr Can. 964, § 2; Pontificio Consiglio per l'Interpretazione dei testi Legislativi, Responsa ad propositum dubium: de loco excipiendi sacramentales confessiones (7 luglio 1998): AAS 90
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CARTA APOSTÓLICA DE
JOÃO PAULO II
SOB FORMA DE «MOTU PROPRIO»
MISERICORDIA DEI
SOBRE ALGUNS ASPECTOS
DA CELEBRAÇÃO
DO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA
Pela misericórdia de Deus, Pai que reconcilia, o Verbo encarnou no seio puríssimo da Bem-aventurada Virgem Maria para salvar «o povo dos seus pecados» (Mt 1,21) e abrir-lhe «o caminho da salvação».(1) São João Baptista confirma esta missão, indicando Jesus como o «Cordeiro de Deus», «Aquele que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29). Toda a obra e a pregação do Precursor é uma chamada enérgica e premente à penitência e à conversão, cujo sinal é o baptismo administrado nas águas do Jordão. Também Jesus se submeteu àquele rito penitencial (cf. Mt 3,13-17), não porque tenha pecado, mas porque «Se deixa contar entre o número dos pecadores; é já o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29), e antecipa já o “baptismo” da sua morte sangrenta».(2) Assim, a salvação é, antes de mais nada, redenção do pecado, enquanto impedimento da amizade com Deus, e libertaçãodo estado de escravidão, no qual se encontra o homem que cedeu à tentação do Maligno e perdeu a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rom 8,21).
A missão confiada por Cristo aos Apóstolos é o anúncio do Reino de Deus e a pregação do Evangelho tendo em vista a conversão (cf. Mc 16,15; Mt 28,18-20). Na tarde do mesmo dia da Ressurreição, quando está iminente o início da missão apostólica, Jesus confere aos Apóstolos, pela força do Espírito Santo, o poder de reconciliar com Deus e com a Igreja os pecadores arrependidos: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos» (Jo 20,22-23).(3)
Na incessante praxe da Igreja ao longo da história, o «ministério da reconciliação» (2Cor 5,18), actuada mediante os sacramentos do Baptismo e da Penitência, revelou-se sempre um empenho pastoral vivamente prezado, realizado segundo o mandato de Jesus como parte essencial do ministério sacerdotal. A celebração do sacramento da Penitência conheceu, ao longo dos séculos, uma evolução com diversas formas expressivas, mas sempre conservando a mesma estrutura fundamental que compreende necessariamente, além da participação do ministro — só um Bispo ou um presbítero, que julga e absolve, cura e sara em nome de Cristo —, os actos do penitente: a contrição, a confissão e a satisfação.
Na Carta Apostólica Novo millennio ineunte, escrevi: «Solicito ainda uma renovada coragem pastoral para, na pedagogia quotidiana das comunidades cristãs, se propor de forma persuasiva e eficaz a prática do Sacramento da Reconciliação. Em 1984, como recordareis, intervim sobre este tema através da Exortação pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia, na qual foram recolhidos os frutos da reflexão da Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos dedicada a esta problemática. Lá, convidava a que se fizesse todo o esforço para superar a crise do «sentido do pecado». [...] Quando o referido Sínodo se debruçou sobre o tema, estava à vista de todos a crise deste Sacramento, sobretudo nalgumas regiões do mundo. E os motivos que a originaram, não desapareceram neste breve espaço de tempo. Mas o Ano Jubilar, que foi caracterizado particularmente pelo recurso à Penitência sacramental, ofereceu-nos uma estimulante mensagem que não deve ser perdida: se tantos fiéis — jovens muitos deles — se aproximaram frutuosamente deste Sacramento, provavelmente é necessário que os Pastores se armem de maior confiança, criatividade e perseverança para o apresentarem e fazerem-no valorizar».(4)
Com estas palavras, quis e quero encorajar e, ao mesmo tempo, dirigir um forte convite aos meus irmãos Bispos — e, através deles, a todos os presbíteros — para um solícito relançamento do sacramento da Reconciliação, inclusive como exigência de autêntica caridade e de verdadeira justiça pastoral,(5) lembrando-lhes que cada fiel, com as devidas disposições interiores, tem o direito de receber pessoalmente o dom sacramental.
A fim de que o ministro do sacramento possa realizar o discernimento sobre as disposições dos penitentes para receber ou não a absolvição e para a devida penitência que há-de impor, é necessário que o fiel, além da noção das faltas cometidas, da dor dos pecados e do propósito de não tornar a cair,(6) confesse os seus pecados. Neste sentido, o Concílio de Trento declarou que é necessário, «por direito divino, confessar todos e cada um dos pecados mortais».(7) A Igreja viu sempre um nexo essencial entre o juízo confiado aos sacerdotes neste sacramento e a necessidade que os penitentes declarem os próprios pecados,(8) salvo nos casos de impossibilidade. Portanto, sendo a confissão completa dos pecados graves, por instituição divina, parte constitutiva do sacramento, ela não está de modo algum confiada à livre disposição dos Pastores (dispensa, interpretação, costumes locais, etc.). A competente Autoridade eclesiástica especifica unicamente — nas relativas normas disciplinares — os critérios para distinguir a impossibilidade real de confessar os pecados de outras situações cuja impossibilidade é só aparente ou de qualquer modo superável.
Nas actuais circunstâncias pastorais, para atender aos pedidos apreensivos de numerosos Irmãos no Episcopado, considero conveniente recordar algumas leis canónicas em vigor sobre a celebração deste sacramento, especificando certos aspectos para, em espírito de comunhão com a responsabilidade que é própria de todo o Episcopado,(9) favorecer uma melhor administração daquele. Trata-se de tornar efectiva e de tutelar uma celebração cada vez mais fiel, e portanto sempre mais proveitosa, do dom confiado à Igreja pelo Senhor Jesus depois da ressurreição (cf. Jo 20, 19-23). Isto revela-se especialmente necessário quando se observa em certas regiões a tendência ao abandono da confissão pessoal, juntamente a um recurso abusivo à «absolvição geral» ou «colectiva», de modo que esta deixa de ser vista como meio extraordinário em situações totalmente excepcionais. Partindo de um alargamento arbitrário do requisito da grave necessidade,(10) perde-se de vista praticamente a fidelidade à configuração divina do sacramento, e concretamente a necessidade da confissão individual, com graves danos para a vida espiritual dos fiéis e para a santidade da Igreja.
Portanto, depois de ouvir a este respeito a Congregação para a Doutrina da Fé, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, bem como os pareceres dos venerados Irmãos Cardeais que estão à frente dos Dicastérios da Cúria Romana, reiterando a doutrina católica relativa ao sacramento da Penitência e da Reconciliação exposta sinteticamente no Catecismo da Igreja Católica,(11) ciente da minha responsabilidade pastoral e com plena consciência da necessidade e eficácia sempre actual deste sacramento, disponho o seguinte:
1. Os Ordinários lembrem a todos os ministros do sacramento da Penitência que a lei universal da Igreja reafirmou, aplicando a doutrina católica nesta matéria, que:
a) «A confissão individual e íntegra e a absolvição constituem o único modo ordinário pelo qual o fiel, consciente de pecado grave, se reconcilia com Deus e com a Igreja; somente a impossibilidade física ou moral o escusa desta forma de confissão, podendo neste caso obter-se a reconciliação também por outros meios».(12)
b) Por isso, «todo aquele que, em razão do ofício, tem cura de almas, está obrigado a providenciar para que sejam ouvidas as confissões dos fiéis que lhe estão confiados e que de modo razoável peçam para se confessar, a fim de que aos mesmos se ofereça a oportunidade de se confessarem individualmente em dias e horas que lhes sejam convenientes».(13)
Além disso, todos os sacerdotes com faculdade de administrar o sacramento da Penitência, mostrem-se sempre e plenamente dispostos a administrá-lo todas as vezes que os fiéis o peçam razoavelmente.(14) A falta de disponibilidade para acolher as ovelhas feridas, mais, para ir ao seu encontro e reconduzi-las ao aprisco, seria um doloroso sinal de carência de sentido pastoral em quem, pela Ordenação sacerdotal, deve reproduzir em si mesmo a imagem do Bom Pastor.
2. Os Ordinários do lugar, bem como os párocos e os reitores de igrejas e santuários, devem verificar periodicamente se existem efectivamente as maiores facilidades possíveis para as confissões dos fiéis. De modo particular, recomenda-se a presença visível dos confessores nos lugares de culto durante os horários previstos, a acomodação destes horários à situação real dos penitentes, e uma especial disponibilidade para confessar antes das Missas e mesmo para ir de encontro à necessidade dos fiéis durante a celebração da Eucaristia, se houver outros sacerdotes disponíveis.(15)
3.Visto que «o fiel tem obrigação de confessar, na sua espécie e número, todos os pecados graves de que se lembrar após diligente exame de consciência, cometidos depois do baptismo e ainda não directamente perdoados pelo poder das chaves da Igreja nem acusados em confissão individual»,(16) seja reprovado qualquer costume que limite a confissão a uma acusação genérica ou somente de um ou mais pecados considerados significativos. Por outro lado, levando-se em conta a chamada de todos os fiéis à santidade, recomenda-se-lhes que confessem também os pecados veniais.(17)
4. À luz e no âmbito das normas precedentes, deve ser entendida e rectamente aplicada a absolvição simultânea de vários penitentes sem prévia confissão individual, prevista no cân. 961 do Código de Direito Canónico. Aquela, com efeito, «reveste-se de carácter excepcional»(18) e «não pode dar-se de modo geral, a não ser que:
1º) seja iminente o perigo de morte, e não haja tempo para um ou mais sacerdotes poderem ouvir a confissão de cada um dos penitentes;
2º) haja grave necessidade, isto é, quando, dado o número de penitentes, não houver sacerdotes suficientes para, dentro de tempo razoável, ouvirem devidamente as confissões de cada um, de tal modo que os penitentes, sem culpa própria, fossem obrigados a permanecer durante muito tempo privados da graça sacramental e da sagrada comunhão; não se considera existir necessidade suficiente quando não possam estar presentes confessores bastantes somente por motivo de grande afluência de penitentes, como pode suceder nalguma grande festividade ou peregrinação».(19)
A respeito do caso de grave necessidade, especifica-se o seguinte:
a) Trata-se de situações objectivamente excepcionais, como as que se podem verificar nos territórios de missão ou em comunidades de fiéis isolados, onde o sacerdote só pode passar uma ou poucas vezes ao ano, ou quando as condições de guerra, meteorológicas ou outras circunstâncias semelhantes o consintam.
b) As duas condições estabelecidas no cânone para configurar uma grave necessidade são inseparáveis, de modo que nunca é suficiente a mera impossibilidade de confessar «devidamente» cada um dos indivíduos «dentro de tempo razoável» devido à escassez de sacerdotes; mas a tal impossibilidade deve associar-se o facto de que, caso contrário, os penitentes ver-se-iam obrigados a permanecer «durante muito tempo», sem culpa própria, privados da graça sacramental. Deve-se, por isso, ter presente o conjunto das circunstâncias dos penitentes e da diocese, quando se atende à sua organização pastoral e à possibilidade de acesso dos fiéis ao sacramento da Penitência.
c) A primeira condição — a impossibilidade de ouvir «devidamente» as confissões «dentro de um tempo razoável» — refere-se só ao tempo normalmente requerido para a essencial administração válida e digna do sacramento, não sendo relevante a este respeito um colóquio pastoral mais amplo, que pode ser adiado para circuns- tâncias mais favoráveis. Este tempo razoavelmente oportuno para nele se ouvir as confissões, dependerá das possibilidades reais do confessor ou confessores e dos mesmos penitentes.
d) Quanto à segunda condição, caberá avaliar com um juízo prudencial qual seja a extensão do tempo de privação da graça sacramental a fim de que haja verdadeira impossibilidade conforme o cân. 960, sempre que não se esteja perante iminente perigo de morte. Tal juízo não é prudencial, se se desvirtua o sentido da impossibilidade física ou moral como no caso, por exemplo, de considerar que um período inferior a um mês implicaria permanecer «durante muito tempo» em tal privação.
e) Não é admissível criar ou permitir que se criem situações de aparente grave necessidade, derivadas da omissão da administração ordinária do sacramento pelo não cumprimento das normas acima indicadas(20) e, muito menos, da opção dos penitentes pela absolvição geral, como se se tratasse de uma possibilidade normal e equivalente às duas formas ordinárias descritas no Ritual.
f) Não constitui suficiente necessidade, a mera grande afluência de penitentes, não só em ocasiões de uma festa solene ou de uma peregrinação, mas nem mesmo por turismo ou outras razões semelhantes devidas à crescente mobilidade das pessoas.
5. Não cabe ao confessor julgar se se verificam as condições requeridas pelo cân. 961-§1, 2º, mas «ao Bispo diocesano, o qual, atendendo aos critérios fixados por acordo com os restantes membros da Conferência Episcopal, pode determinar os casos em que se verifique tal necessidade».(21) Estes critérios pastorais deverão ser expressão do esforço de total fidelidade, nas circunstâncias dos respectivos territórios, aos critérios de fundo definidos pela disciplina universal da Igreja, que se apoiam aliás nas exigências derivadas do mesmo sacramento da Penitência na sua divina instituição.
6. Numa matéria tão essencial para a vida da Igreja, sendo de fundamental importância a plena harmonia entre os vários Episcopados do mundo, as Conferências Episcopais, segundo o cân. 455-§ 2 do CDC, farão chegar quanto antes à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos o texto das normas que pensam estabelecer ou actualizar, à luz deste Motu proprio, em aplicação do cân 961 do CDC. Tal medida favorecerá, sem dúvida, uma sempre maior comunhão entre os Bispos de toda a Igreja, estimulando os fiéis de todas as partes a recorrer abundantemente às fontes da misericórdia divina, que sempre jorram do sacramento da Reconciliação.
Nesta perspectiva de comunhão, será também oportuno que os Bispos diocesanos informem as respectivas Conferências Episcopais se se verificam ou não, no próprio âmbito de jurisdição, casos de grave necessidade. Caberá, em seguida, às Conferências Episcopais informar a sobredita Congregação sobre a situação realmente existente no seu território, e as eventuais mudanças que se registassem posteriormente.
7. Quanto às disposições pessoais do penitente, reitera-se que:
a) «Para o fiel poder usufruir validamente da absolvição concedida simultaneamente a várias pessoas, requer-se não só que esteja devidamente disposto, mas que simultaneamente proponha confessar-se individualmente, no devido tempo, dos pecados graves que no momento não pôde confessar».(22)
b) Na medida do possível, inclusive no caso de iminente perigo de morte, «instruam-se [os fiéis] a que procure cada um fazer o acto de contrição».(23)
c) É claro que não podem receber validamente a absolvição os penitentes que vivam em estado habitual de pecado grave e não queiram mudar a própria situação.
8. Mantendo-se a obrigação «de confessar fielmente os pecados graves, ao menos uma vez ao ano»,(24) «aquele a quem forem perdoados pecados graves em absolvição geral, aproxime-se quanto antes, oferecendo-se a ocasião, da confissão individual, antes de receber nova absolvição geral, a não ser que surja causa justa».(25)
9. Acerca do lugar e da sede para a celebração do sacramento tenha-se em conta que:
a) «O lugar próprio para ouvir as confissões sacramentais é a igreja ou o oratório»,(26) deixando porém claro que razões de ordem pastoral podem justificar as celebrações do sacramento em outros lugares;(27)
b) a sede para as confissões é disciplinada com normas estabelecidas pelas respectivas Conferências Episcopais, as quais deverão garantir que aquela esteja colocada «em lugar patente» e seja também «munida de grade fixa», permitindo assim aos fiéis, e aos mesmos confessores, que o desejem, seu livre uso.(28)
Tudo o que estabeleci, com a presente Carta apostólica em forma de Motu proprio, ordeno que tenha valor pleno e estável e seja observado a partir deste dia, não obstante qualquer outra disposição em contrário.Aquela, por sua natureza, tem valor inclusive para as venerandas Igrejas Católicas Orientais, de acordo com os respectivos cânones que lhes são próprios.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 7 de Abril, Domingo da Oitava de Páscoa ou da Divina Misericórdia, no ano do Senhor de 2002, vigésimo quarto de Pontificado.
Notas
(1) Missal Romano, Prefácio do Advento I.
(2) Catecismo da Igreja Católica, 536.
(3) Cf. Conc. Ecum. de Trento, ses.XIV, De sacramento paenitentiae, cân. 3: DS 1703.
(4) N. 37: AAS 93 (2001) 292.
(5) Cf. CDC, cân. 213 e 843, §1.
(6) Cf. Conc. Ecum. de Trento, ses.XIV, De sacramento paenitentiae, cap. 4: DS 1676.
(7) Ibid., cân. 7: DS 1707.
(8) Cf. ibid., cap. 5: DS 1679; Conc.Ecum. de Florença, Decr. pro Armeniis (22 de Novembro de 1439): DS 1323.
(9) Cf. cân. 392; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 23.27; Decr. sobre o ministério pastoral dos bispos Christus Dominus, 16.
(10) Cf. cân. 961, § 1, 2º.
(11) Cf. nn. 980-987; 1114-1134; 1420-1498.
(12) Cân. 960.
(13) Cân. 986, § 1.
(14) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o ministério e vida dos presbíteros Presbyterorum ordinis, 13; Ordo Paenitentiae, editio typica, 1974, Praenotanda, n. 10,b.
(15) Cf. Congr. para o Culto divino e a Disciplina dos sacramentos, Responsa ad dubia proposita: «Notitiae», 37 (2001), 259-260.
(16) Cân. 988, § 1.
(17) Cf. cân. 988, § 2; João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia (2 de Dezembro de 1984), 32: AAS 77 (1985) 267; Catecismo da Igreja Católica, 1458.
(18) João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia (2 de Dezembro de 1984), 32: AAS 77 (1985), 267.
(19) Cân. 961, § 1.
(20) Cf. supra nn. 1 e 2.
(21) Cân. 961, § 2.
(22) Cân. 962, § 1.
(23) Cân. 962, § 2.
(24) Cân. 989.
(25) Cân. 963.
(26) Cân. 964, § 1.
(27) Cf. cân. 964, § 3.
(28) Cf. cân. 964, § 2; Pont. Cons. para a Interpretação dos Textos legislativos, Responsa ad propositum dubium: de loco excipiendi sacramentales confessiones (7 de Julho de 1998): AAS
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LETTERA APOSTOLICA
IN FORMA DI «MOTU PROPRIO»
MISERICORDIA DEI
SU ALCUNI ASPETTI DELLA CELEBRAZIONE
DEL SACRAMENTO DELLA PENITENZA
Per la misericordia di Dio, Padre che riconcilia, il Verbo prese carne nel grembo purissimo della Beata Vergine Maria per salvare «il suo popolo dai suoi peccati» (Mt 1, 21) e aprirgli «la via della eterna salvezza».(1) San Giovanni Battista conferma questa missione indicando in Gesù l'«Agnello di Dio», «colui che toglie il peccato del mondo» (Gv 1, 29). Tutta l'opera e la predicazione del Precursore è una chiamata energica e calorosa alla penitenza e alla conversione, il cui segno è il battesimo amministrato nelle acque del Giordano. Lo stesso Gesù si è sottomesso a quel rito penitenziale (cfr Mt 3, 13- 17), non perché abbia peccato, ma perché «Egli si lascia annoverare tra i peccatori; è già “l'Agnello di Dio che toglie il peccato del mondo” (Gv 1, 29); già anticipa il “battesimo” della sua morte cruenta».(2) La salvezza è, dunque e innanzitutto, redenzione dal peccato quale impedimento all'amicizia con Dio, e liberazione dallo stato di schiavitù nel quale si trova l'uomo, che ha ceduto alla tentazione del Maligno e ha perso la libertà dei figli di Dio (cfr Rm 8, 21).
La missione affidata da Cristo agli Apostoli è l'annuncio del Regno di Dio e la predicazione del Vangelo in vista della conversione (cfr Mc 16, 15; Mt 28, 18-20). La sera dello stesso giorno della sua Risurrezione, quando è imminente l'inizio della missione apostolica, Gesù dona agli Apostoli, in virtù della forza dello Spirito Santo, il potere di riconciliare con Dio e con la Chiesa i peccatori pentiti: «Ricevete lo Spirito Santo; a chi rimetterete i peccati saranno rimessi e a chi non li rimetterete, resteranno non rimessi» (Gv 20, 22-23).(3)
Lungo la storia e nell'ininterrotta prassi della Chiesa «il ministero della riconciliazione» (2 Cor 5, 18), donata mediante i sacramenti del Battesimo e della Penitenza, si è dimostrato un impegno pastorale sempre vivamente sentito, compiuto in ossequio al mandato di Gesù come parte essenziale del ministero sacerdotale. La celebrazione del sacramento della Penitenza ha avuto nel corso dei secoli uno sviluppo che ha conosciuto diverse forme espressive, sempre, però, conservando la medesima struttura fondamentale che comprende necessariamente, oltre all'intervento del ministro — soltanto un Vescovo o un presbitero, che giudica e assolve, cura e guarisce nel nome di Cristo — gli atti del penitente: la contrizione, la confessione e la soddisfazione.
Nella Lettera apostolica Novo millennio ineunte ho scritto: «Un rinnovato coraggio pastorale vengo poi a chiedere perché la quotidiana pedagogia delle comunità cristiane sappia proporre in modo suadente ed efficace la pratica del sacramento della Riconciliazione. Come ricorderete, nel 1984 intervenni su questo tema con l'Esortazione postsinodale Reconciliatio et paenitentia, che raccoglieva i frutti di riflessione di un'Assemblea generale del Sinodo dei Vescovi dedicata a questa problematica. Invitavo allora a fare ogni sforzo per fronteggiare la crisi del “senso del peccato” (...) Quando il menzionato Sinodo affrontò il problema, stava sotto gli occhi di tutti la crisi del Sacramento, specialmente in alcune regioni del mondo. I motivi che ne erano all'origine non sono svaniti in questo breve arco di tempo. Ma l'Anno giubilare, che è stato particolarmente caratterizzato dal ricorso alla Penitenza sacramentale, ci ha offerto un messaggio incoraggiante, da non lasciar cadere: se molti, e tra essi anche tanti giovani, si sono accostati con frutto a questo Sacramento, probabilmente è necessario che i Pastori si armino di maggior fiducia, creatività e perseveranza nel presentarlo e farlo valorizzare».(4)
Con queste parole ho inteso e intendo far coraggio e, nello stesso tempo, rivolgere un forte invito ai miei confratelli Vescovi — e, attraverso di essi, a tutti i presbiteri — per un sollecito rilancio del sacramento della Riconciliazione, anche come esigenza di autentica carità e di vera giustizia pastorale,(5) ricordando loro che ogni fedele, con le dovute disposizioni interiori, ha diritto a ricevere personalmente il dono sacramentale.
Affinché il discernimento sulle disposizioni dei penitenti in ordine alla remissione o meno, e all'imposizione dell'opportuna penitenza da parte del ministro del Sacramento possa essere attuato, occorre che il fedele, oltre alla coscienza dei peccati commessi, al dolore per essi e alla volontà di non più ricaderci,(6) confessi i suoi peccati. In questo senso, il Concilio di Trento dichiarò che è necessario «per diritto divino confessare tutti e singoli i peccati mortali».(7) La Chiesa ha visto sempre un nesso essenziale tra il giudizio affidato ai sacerdoti in questo Sacramento e la necessità che i penitenti dichiarino i propri peccati,(8) tranne in caso di impossibilità. Pertanto, essendo la confessione completa dei peccati gravi per istituzione divina parte costitutiva del Sacramento, essa non resta in alcun modo affidata alla libera disponibilità dei Pastori (dispensa, interpretazione, consuetudini locali, ecc.). La competente Autorità ecclesiastica specifica unicamente — nelle relative norme disciplinari — i criteri per distinguere l'impossibilità reale di confessare i peccati da altre situazioni in cui l'impossibilità è solo apparente o comunque superabile.
Nelle attuali circostanze pastorali, venendo incontro alle preoccupate richieste di numerosi Fratelli nell'Episcopato, considero conveniente richiamare alcune delle leggi canoniche vigenti circa la celebrazione di questo Sacramento, precisandone qualche aspetto per favorire in spirito di comunione con la responsabilità che è propria dell'intero Episcopato(9) una sua migliore amministrazione. Si tratta di rendere effettiva e di tutelare una celebrazione sempre più fedele, e pertanto sempre più fruttifera, del dono affidato alla Chiesa dal Signore Gesù dopo la risurrezione (cfr Gv 20, 19-23). Ciò appare specialmente necessario dal momento che si osserva in alcune regioni la tendenza all'abbandono della confessione personale insieme ad un ricorso abusivo all'«assoluzione generale» o «collettiva», sicché essa non appare come mezzo straordinario in situazioni del tutto eccezionali. Sulla base di un allargamento arbitrario del requisito della grave necessità,(10) si perde di vista in pratica la fedeltà alla configurazione divina del Sacramento, e concretamente la necessità della confessione individuale, con gravi danni per la vita spirituale dei fedeli e per la santità della Chiesa.
Pertanto, dopo aver sentito in merito la Congregazione per la Dottrina della Fede, la Congregazione per il Culto Divino e la Disciplina dei Sacramenti e il Pontificio Consiglio per i Testi Legislativi, nonché i pareri di venerati Fratelli Cardinali preposti ai Dicasteri della Curia Romana, ribadendo la dottrina cattolica riguardo al sacramento della Penitenza e della Riconciliazione, esposta sinteticamente nel Catechismo della Chiesa Cattolica,(11) cosciente della mia responsabilità pastorale e con piena consapevolezza della necessità ed efficacia sempre attuali di questo Sacramento, dispongo quanto segue:
1. Gli Ordinari ricordino a tutti i ministri del sacramento della Penitenza che la legge universale della Chiesa ha ribadito, in applicazione della dottrina cattolica in materia, che:
a) «La confessione individuale e integra e l'assoluzione costituiscono l'unico modo ordinario con cui il fedele, consapevole di peccato grave, è riconciliato con Dio e con la Chiesa; solamente una impossibilità fisica o morale scusa da una tale confessione, nel qual caso la riconciliazione si può ottenere anche in altri modi».(12)
b) Perciò, «tutti coloro cui è demandata in forza dell'ufficio la cura delle anime, sono tenuti all'obbligo di provvedere che siano ascoltate le confessioni dei fedeli a loro affidati, che ragionevolmente lo chiedano, e che sia ad essi data l'opportunità di accostarsi alla confessione individuale, stabiliti, per loro comodità, giorni e ore».(13)
Inoltre, tutti i sacerdoti che hanno la facoltà di amministrare il sacramento della Penitenza, si mostrino sempre e pienamente disposti ad amministrarlo ogniqualvolta i fedeli ne facciano ragionevolmente richiesta.(14) La mancanza di disponibilità ad accogliere le pecore ferite, anzi, ad andare loro incontro per ricondurle all'ovile, sarebbe un doloroso segno di carenza di senso pastorale in chi, per l'Ordinazione sacerdotale, deve portare in sé l'immagine del Buon Pastore.
2. Gli Ordinari del luogo, nonché i parroci e i rettori di chiese e santuari, devono verificare periodicamente che di fatto esistano le massime facilitazioni possibili per le confessioni dei fedeli. In particolare, si raccomanda la presenza visibile dei confessori nei luoghi di culto durante gli orari previsti, l'adeguamento di questi orari alla situazione reale dei penitenti, e la speciale disponibilità per confessare prima delle Messe e anche per venire incontro alla necessità dei fedeli durante la celebrazione delle SS. Messe, se sono disponibili altri sacerdoti.(15)
3. Poiché «il fedele è tenuto all'obbligo di confessare secondo la specie e il numero tutti i peccati gravi commessi dopo il Battesimo e non ancora direttamente rimessi mediante il potere delle chiavi della Chiesa, né accusati nella confessione individuale, dei quali abbia coscienza dopo un diligente esame»,(16) va riprovato qualsiasi uso che limiti la confessione ad un'accusa generica o soltanto di uno o più peccati ritenuti più significativi. D'altra parte, e tenendo conto della chiamata di tutti i fedeli alla santità, si raccomanda loro di confessare anche i peccati veniali.(17)
4. Alla luce e nel contesto delle norme precedenti, deve essere compresa e rettamente applicata l'assoluzione a più penitenti insieme senza la previa confessione individuale, prevista al can. 961 del Codice di Diritto Canonico. Essa, infatti, «riveste un carattere di eccezionalità»(18) e «non può essere impartita in modo generale se non:
1º vi sia imminente pericolo di morte ed al sacerdote o ai sacerdoti non basti il tempo per ascoltare le confessioni dei singoli penitenti;
2º vi sia grave necessità, ossia quando, dato il numero dei penitenti, non si hanno a disposizione confessori sufficienti per ascoltare, come si conviene, le confessioni dei singoli entro un tempo conveniente, sicché i penitenti, senza loro colpa, sarebbero costretti a rimanere a lungo privi della grazia sacramentale o della sacra comunione; però la necessità non si considera sufficiente quando non possono essere a disposizione dei confessori, per la sola ragione di una grande affluenza di penitenti, quale può aversi in occasione di una grande festa o di un pellegrinaggio».(19)
Circa il caso di grave necessità, si precisa quanto segue:
a) Si tratta di situazioni che, oggettivamente, sono eccezionali, come quelle che si possono verificare in territori di missione o in comunità di fedeli isolati, dove il sacerdote può passare soltanto una o poche volte l'anno o quando le condizioni belliche, meteorologiche o altre simili circostanze lo consentano.
b) Le due condizioni stabilite nel canone per configurare la grave necessità sono inseparabili, per cui non è mai sufficiente la sola impossibilità di confessare «come si conviene» i singoli entro «un tempo conveniente» a causa della scarsità di sacerdoti; tale impossibilità deve essere unita al fatto che altrimenti i penitenti sarebbero costretti a rimanere «a lungo», senza loro colpa, privi della grazia sacramentale. Si debbono perciò tener presenti le circostanze complessive dei penitenti e della diocesi, per quanto attiene l'organizzazione pastorale di questa e la possibilità di accesso dei fedeli al sacramento della Penitenza.
c) La prima condizione, l'impossibilità di poter ascoltare le confessioni «come si conviene» «entro un tempo conveniente», fa riferimento solo al tempo ragionevolmente richiesto per l'essenziale amministrazione valida e degna del Sacramento, non essendo rilevante a tale riguardo un colloquio pastorale più lungo, che può essere rimandato a circostanze più favorevoli. Questo tempo ragionevolmente conveniente, entro cui ascoltare le confessioni, dipenderà dalle possibilità reali del confessore o confessori e degli stessi penitenti.
d) Circa la seconda condizione, sarà un giudizio prudenziale a valutare quanto lungo debba essere il tempo di privazione della grazia sacramentale affinché si abbia vera impossibilità a norma del can. 960, allorché non vi sia imminente pericolo di morte. Tale giudizio non è prudenziale se stravolge il senso dell'impossibilità fisica o morale, come accadrebbe se, ad esempio, si considerasse che un tempo inferiore a un mese implicherebbe rimanere «a lungo» in simile privazione.
e) Non è ammissibile il creare o il permettere che si creino situazioni di apparente grave necessità, derivanti dalla mancata amministrazione ordinaria del Sacramento per inosservanza delle norme sopra ricordate(20) e tanto meno, dall'opzione dei penitenti in favore dell'assoluzione in modo generale, come se si trattasse di una possibilità normale ed equivalente alle due forme ordinarie descritte nel Rituale.
f) La sola grande affluenza di penitenti non costituisce sufficiente necessità, non soltanto in occasione di una festa solenne o di un pellegrinaggio, ma neppure per turismo o altre simili ragioni dovute alla crescente mobilità delle persone.
5. Giudicare se ricorrano le condizioni richieste a norma del can. 961, § 1, 2º, non spetta al confessore, ma «al Vescovo diocesano, il quale, tenuto conto dei criteri concordati con gli altri membri della Conferenza Episcopale, può determinare i casi di tale necessità».(21) Tali criteri pastorali dovranno essere espressione della ricerca della totale fedeltà, nelle circostanze dei rispettivi territori, ai criteri di fondo espressi dalla disciplina universale della Chiesa, i quali peraltro poggiano sulle esigenze derivanti dallo stesso sacramento della Penitenza nella sua divina istituzione.
6. Essendo di fondamentale importanza, in una materia tanto essenziale per la vita della Chiesa, la piena armonia tra i vari Episcopati del mondo, le Conferenze Episcopali, a norma del can. 455 § 2 del C.I.C., faranno pervenire quanto prima alla Congregazione per il Culto Divino e la Disciplina dei Sacramenti il testo delle norme che esse intendono emanare oppure aggiornare, alla luce del presente Motu proprio sull'applicazione del can. 961 del C.I.C. Ciò non mancherà di favorire una sempre più grande comunione tra i Vescovi di tutta la Chiesa, spingendo ovunque i fedeli ad attingere abbondantemente alle fonti della misericordia divina, sempre zampillanti nel sacramento della Riconciliazione.
In questa prospettiva di comunione sarà pure opportuno che i Vescovi diocesani riferiscano alle rispettive Conferenze Episcopali circa il verificarsi o meno, nell'ambito della loro giurisdizione, di casi di grave necessità. Sarà poi compito delle Conferenze Episcopali informare la predetta Congregazione circa la situazione di fatto esistente nel loro territorio e sugli eventuali mutamenti che dovessero in seguito registrarsi.
7. Quanto alle disposizioni personali dei penitenti viene ribadito che:
a) «Affinché un fedele usufruisca validamente dell'assoluzione sacramentale impartita simultaneamente a più persone, si richiede che non solo sia ben disposto, ma insieme faccia il proposito di confessare a tempo debito i singoli peccati gravi, che al momento non può confessare».(22)
b) Per quanto è possibile, anche nel caso di imminente pericolo di morte, venga premessa ai fedeli «l'esortazione che ciascuno provveda a porre l'atto di contrizione».(23)
c) È chiaro che non possono ricevere validamente l'assoluzione i penitenti che vivono in stato abituale di peccato grave e non intendono cambiare la loro situazione.
8. Fermo restando l'obbligo «di confessare i propri peccati gravi almeno una volta all'anno»,(24) «colui al quale sono rimessi i peccati gravi mediante l'assoluzione generale, si accosti quanto prima, offrendosene l'occasione, alla confessione individuale, prima che abbia a ricevere un'altra assoluzione generale, a meno che non sopraggiunga una giusta causa».(25)
9. Circa il luogo e la sede per la celebrazione del Sacramento, si tenga presente che:
a) «il luogo proprio per ricevere le confessioni sacramentali è la chiesa o l'oratorio»,(26) pur restando chiaro che ragioni di ordine pastorale possono giustificare la celebrazione del Sacramento in luoghi diversi;(27)
b) la sede per le confessioni è disciplinata dalle norme emanate dalle rispettive Conferenze Episcopali, le quali garantiranno che essa sia collocata «in luogo visibile» e sia anche «provvista di grata fissa», così da consentire ai fedeli ed agli stessi confessori che lo desiderano di potersene liberamente servire.(28)
Tutto ciò che con la presente Lettera apostolica in forma di Motu proprio ho stabilito, ordino che abbia pieno e durevole valore e sia osservato a partire da questo giorno, nonostante qualsiasi altra disposizione in contrario. Quanto ho stabilito con questa Lettera ha valore, per sua natura, anche per le venerande Chiese Orientali Cattoliche, in conformità ai rispettivi canoni del Codice loro proprio.
Dato a Roma, presso San Pietro, il 7 del mese di aprile, Domenica nell'Ottava di Pasqua o della Divina Misericordia, nell'anno del Signore 2002, ventiquattresimo di Pontificato.
GIOVANNI PAOLO II
(1)Messale Romano, Prefazio dell'Avvento I.
(2)Catechismo della Chiesa Cattolica, 536.
(3)Cfr Conc. Ecum.Tridentino, sess. XIV, De sacramento paenitentiae, can 3: DS 1703.
(4)N. 37: AAS 93 (2001) 292.
(5)Cfr C.I.C., cann. 213 e 843, § 1.
(6)Cfr Conc. Ecum. Tridentino, sess. XIV, Doctrina de sacramento paenitentiae, cap. 4: DS 1676.
(7)Ibid., can. 7: DS 1707.
(8)Cfr ibid., cap. 5: DS 1679; Conc.Ecum. Fiorentino, Decr. pro Armeniis: DS 1323.
(9)Cfr can. 392; Conc.Ecum. Vat. II, Cost. dogm. sulla Chiesa Lumen gentium, 23.27; Decr. sull'ufficio pastorale dei Vescovi Christus Dominus, 16.
(10)Cfr can. 961, § 1, 2º.
(11)Cfr nn. 980-987; 1114-1134; 1420-1498.
(12)Can. 960.
(13)Can. 986, § 1.
(14)Cfr Conc.Ecum. Vat. II, Decr. sul ministero e la vita dei presbiteri Presbyterorum ordinis, 13; Ordo Paenitentiae, Praenotanda, n. 10, b, editio typica, 1974.
(15)Cfr Congr. per il Culto Divino e la Disciplina dei Sacramenti, Responsa ad dubia proposita: «Notitiae», 37 (2001), 259-260.
(16)Can. 988, § 1.
(17)Cfr can. 988, § 2; Giovanni Paolo II, Esort. ap. post-sinodale Reconciliatio et paenitentia (2 dicembre 1984), 32: AAS 77 (1985) 267; Catechismo della Chiesa Cattolica, 1458.
(18)Giovanni Paolo II, Esort. ap. post-sinodale Reconciliatio et paenitentia (2 dicembre 1984), 32: AAS 77 (1985) 267.
(19)Can. 961, § 1.
(20)Cfr sopra nn. 1 e 2.
(21)Can. 961, § 2.
(22)Can. 962, § 1.
(23)Can. 962, § 2.
(24)Can. 989.
(25)Can. 963.
(26)Can. 964, § 1.
(27)Cfr Can. 964, § 3.
(28)Cfr Can. 964, § 2; Pontificio Consiglio per l'Interpretazione dei testi Legislativi, Responsa ad propositum dubium: de loco excipiendi sacramentales confessiones (7 luglio 1998): AAS 90
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